Reflexões sobre verdades parciais e fatos sociais

Reflexões sobre verdades parciais e fatos sociais

Ao perceber e refletir sobre o estudo de epistemologia como representações mentais surgidas a partir do século XVII desenvolvida na sociedade europeia, especificamente, não foi um processo gratuito onde se criou uma teoria do conhecimento como a filosofia dotada de noções centrais tornando-se paradigma de todo saber. Assim a noção epistemológica vira-se para esclarecimentos e julgamentos das representações do sujeito, sendo também uma preocupação filosófica em áreas que dividiam a cultura em realidades representadas.

Conhecimento é ciência, assim, Rabinow (2002) concorda com a noção de conhecimento como uma representação acurada possível através de processos mentais e inteligíveis através de uma teoria geral da representação. Ele faz uma crítica à epistemologia ocidental moderna, a própria epistemologia constituída numa cultura determinada e datada.

Para Kant, Descartes e boa parte das ciências sociais o conhecimento é a priori e podemos começar ou estender esse debate em outro momento com o texto, por exemplo, As Formas Elementares da Vida Religiosa, de Durkheim e Mauss quando se questionam se realmente é a priori ou não.

Ao longo da leitura, o autor gera um debate epistemológico sobre a origem do conhecimento. Toda ideia do racionalismo moderno está ancorada nessa relação Descartes x Kant. Nesse debate a razão não é apenas proeminente como anterior à experiência do mundo.  Desta maneira, a razão vira um conceito universal em um debate com a antropologia em que a tensão do mundo é local (primeiramente); é a ideia do racionalismo em nome da razão.

Embora haja divergências entre alguns autores, há um consenso em dizer que a hermenêutica é uma forma histórica de esclarecimentos. E recuperando Bourdieu, Rabinow afirma que há uma luta de poder para saber o que é verdade. Assim a antropologia assimétrica diz que fizemos filosofia com gente, pois a filosofia é um conhecimento sobre o mundo abstrato em que há uma universalidade. Essa universalidade não é a representação dos povos do mundo, é apenas a representação ocidental do conhecimento. Assim, o problema central que se apresenta é da universalidade, da verdade, e tem muito a ver com a discussão de representação e experiência e os outros paradigmas que se colocam.

Sobre Verdade x falsidade – é importante ressaltar que a epistemologia não renega a verdade. Podemos fazer um breve comentário sobre a diferença entre lógica e verdade e evitaríamos o problema de relativizar a razão ou de transformar as diferentes concepções históricas de verdade e falsidade numa questão de subjetivismo. Estas concepções são fatos históricos e sociais. Então, como se evita a relativização absoluta? O que vai aparecendo é que não se pode fazer uma crítica de um paradigma a outro. Para concluir não podemos dizer que existe apenas um mundo e sim vários mundos, pois as culturas têm suas especificidades e suas formas de apreensão.

Concordo com a crítica de representação do Geertz, onde ele coloca que não sistema de explicação para a construção do conhecimento melhor do que a hermenêutica. A hermenêutica diz isso: na verdade todo mundo busca uma verdade, e a única questão é saber que a tua verdade não é absoluta e que não dá conta de tudo e que ela, a verdade, é parcial, temporal, histórica, cultural, e tem relação com o nosso posicionamento e que obviamente irão existir outras verdades. Assim, as verdades são parciais.

            Roberto Cardoso de Oliveira (1998) traz importantes contribuições sobre o debate:

A questão do método sempre acompanhou a busca da verdade. E certamente não começa com Descartes, mas o antecipa em séculos, se levarmos em conta o próprio pensamento grego, com o Organon de Aristóteles, ou, ainda, já na contemporaneidade de Descartes, o Novum Organum de Bacon (OLIVEIRA, 1998, pg. 74)

Para Oliveira, a questão das subjetividades do sujeito cognoscente surge como questões que demandam sua neutralização pelo método, por algp que permita uma sorte de medida ou um parâmetro de avaliação, sem o qual se torna inviável qualquer pretensão à cientificidade (OLIVEIRA, 1998, 73-85).

Assim, a epistemologia cartesiana defende a explicação desde Durkheim, e temos que explicar o que é para tudo. A explicação existe e começamos por compreender para entender e posteriormente compreender novamente que o entendimento é parcial. Por fim, o autor lança algumas hipóteses sobre a discussão: a verdade como um sistema de pensamentos ordenados para distribuição das informações e a verdade conectada numa relação circular com sistemas de poder que a produzem contribuindo para a produção do capitalismo.

Referências Bibliográficas

OLIVEIRA, Roberto Cardoso. O trabalho do antropólogo. Edição Paralelo 15, Brasília, 1998.

CLIFFORD, James. “Introducción: verdade parciales” In: CLIFFORD, James. & MARCUS, G. Retóricas de la antropología. Madri: Ediciones Júcar, 1991.