Reflexões sobre a corporeidade

Reflexões sobre a corporeidade

Um paradigma serve para não dispersar um recorte da realidade ao reduzir sua complexidade manifestada em objetos de estudo, observação e investigação. Acredito que os paradigmas tem como propósitos a elaboração de um conjunto de normas que tem sempre um princípio de orientação e direção do pensar sempre acompanhado de uma perspectiva metodológica que ordena e aponta um conjunto de formulações.

Partindo do paradigma da corporeidade, como coloca Csordas (2008), o autor propõe transcender metodologias ao propor um olhar fenomenológico de que o corpo é sujeito da cultura ou sua base existencial. Para Hallowell o self é culturalmente constituído a partir da percepção e o reconhecimento de si. Assim, posso fazer livres associações com meu objeto de estudo através das fotografias selfies onde o corpo tem ampla visibilidade em perfis nas redes sociais.

Contudo, é possível aproximarmos o pensamento de Hallowell com a perspectiva de Nikolas Rose (2011) ao perceber a fotografia selfie como uma experiência que tem como objeto as maneiras de ser humano, agregando tecnologias – como smartphones e aplicativos – assumindo a forma de uma elaboração de si para a relação consigo mesmo quando incorporadas em estética, visibilidade e sociabilidade online. A selfie por si só não representa apenas uma técnica de se tornar humano perante o outro “mas apenas uma maneira pela qual os humanos têm sido levados a entender a si mesmos e a se relacionar consigo mesmo” (ROSE, 2011, pg. 49).

Csordas (2008) percebe que tanto para Merleau-Ponty quanto para Pierre Bourdieu a estrutura-prática é a dualidade que tem como princípio metodológico a corporeidade. A partir desta perspectiva o corpo torna-se figura metodológica seja ele mesmo não mais dualista, mas um contexto em relação ao mundo, sendo a consciência projetada ao todo através do corpo. Para o autor, “através dessas imagens corporificadas as disposições do habitus são manifestadas em comportamento” como no caso da pesquisa em desenvolvimento, a selfie.

Levanto a partir da leitura os seguintes questionamentos a partir da coleta de dados até aqui.

A. Como a selfie é articulada nas redes sociais como apresentação de si através do corpo no aplicativo Tinder.

B. Compreender qual é o espaço que se constitui a selfie.

C. Perceber como as masculinidades e a classe social tornam-se elementos que se cruzam nas selfies.

Para posições positivas e negativas quanto à proliferação de selfies como exacerbação de um individualismo como evento-chave da modernidade e pós-modernidade revelam-se subjetividades do próprio self, como bem coloca Rose (2011) ao abordar nosso regime moderno do self, ou seja, nossa relação com nós mesmos, que para ele tem entendimento interiorizado, psicologizado e totalizado.

            Quanto às subjetividades que se relacionam a respeito das selfies e a exposição do corpo está ligada à emergência de uma série de novas práticas sociais que buscam novas maneiras de informar ao mundo suas emoções, seu corpo, seu reflexo no espelho operando como novas formas de entender-se a si próprio.

Referências Bibliográficas

Csordas, Thomas. “A corporeidade como paradigma”. In: Corpo/significado/cura. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2008.

ROSE, Nikolas. Inventando nossos selfs. Editora Vozes, 2011.