Redes ilimitadas e singulares

Redes ilimitadas e singulares

Como a extensão da rede do dono da licença de distribuição da Shell é extensa, a rede de Márcia também é. No primeiro caso contanto por Strathern (2014), o empresário tem um negócio baseado em um acordo familiar, enquanto que no exemplo de Rohden (2018), Márcia tem acordos médicos que dão suporte para que ela tenha acesso a implantes de hormônios. Em ambos os casos, o corpo é acionado no que Barad (2003) vai chamar de intra-ação para agenciamentos dos corpos em um emaranhado de redes que se interligam por seus atores. Se o primeiro corpo é transformado em uma poupança, o corpo de Márcia é transformado em uma promessa de uma juventude funcional duradoura, sem dores e sofrimentos. As redes que se desenrolam vão desde os homens e mulheres sendo relacionados como mercadorias ou consumidores em um processo de mercantilização ou, ainda, materialização de um agenciamento que traz luz ao que Barad pontuou como uma outra forma de compreendermos a relação entre materialidade e significação, transformada a partir de uma nova linguagem e de novos questionamentos.

 – Nós realmente temos acesso as representações culturais para as coisas que nos sãos representados?

– Como a linguagem se tornou mais confiável que a matéria, já que as materialidades estão figuradas dentro de um processo linguístico como a própria condição de possibilidade de existência?

Os fenômenos de humanos e não-humanos, corpos desviantes, agenciamentos e redes surgem no final dos anos de 1983 como uma fonte da ciência como discurso cultural (Strathern, 2014, p. 3).  Se uma rede pode ser composta de competências diferentes, o conhecimento, como coloca a autora, é um misto de técnicas combinadas a relações sociais, usada para negociar operações, é aí que o caso de Márcia fica evidente, ou seja, um exemplo claro de que certos atores em determinadas redes reivindicam um “puro tecnicismo” desencadeando subjetividades  particulares nas transformações e apropriações destes corpos, tanto de Márcia ao implantar chips de hormônios ou do “corpo poupança” do gerente da Shell em Camarões. Rohden (2018) ao desenhar as redes que configuravam o caso de Márcia, mostrou como os efeitos são produzidos a partir de alianças entre humanos e não-humanos, a narrativa da entrevistada é ao longo do texto explicitada como uma rede de sinais que revela habilidades e competências produzidas por ela a partir de elementos heterogêneos que constituem o evento, neste caso o evento do implante. Para Strathern (2014) o corpo lança diversos sinais, revelando habilidades em circunstancias unidas pelas interações sociais “um híbrido imaginado como um estado socialmente estendido” (2014, p. 5). Márcia relata na entrevista seu encontro com o médico, pele seca, cabelo ressecado, alteração de humor, perda de massa muscular, retina ressecada, angústia, etc. Ao acionarmos Strathern e Rohden, é possível identificarmos como como determinados artefatos são manipuláveis e utilizáveis nas buscas das pessoas por seus interesses e em sua construção de relacionamentos, pois na fala da entrevista fica claro o paciente expert, capaz de administrar seus próprios riscos ao buscar uma “qualidade de vida” através dos fármacos. São estas fronteiras que determinam quão sedutoras são nossas crenças nas categorias gramaticais ao analisarmos a representação e o poder das palavras em um fenômeno ou evento. Para Barad (2003) a performatividade das palavras, da própria forma linguística é o material da realidade, “uma contestação dos hábitos mentais não examinados que conferem à linguagem outras formas de representação” (2003, p. 803).

O híbrido detectado nas redes ilimitadas

Ao adicionar (ou subtrair?) dados culturais, podemos “cortar” ou estender narrativas “para não falar da infindável produção antropológica de significados culturais” (STRATHERN, 2014, p. 6). Acredito que poderíamos formular outras questões para o caso de Márcia, pois tendemos a pensar que o mundo é feito de interações entre indivíduos em seus quadros de referências. Para Barad (2012), esses novos quadros de referências que criamos só existem por causa de determinadas interações, assim, o realismo agencial aparece como uma teoria que enfraquece não apenas a substância da matéria como a conhecemos, mas também as dicotomias. A intra-ação proposto pela autora, delega que os agentes precedem e produzem um efeito e desestabiliza com isso a crença que existem agentes constituídos individualmente, e é aí que a Teoria do Ator-Rede complementa ao destacar que as diferenças assumem sua existência dentro dos fenômenos. Fenômenos, estes, que são de um sentido realista, um entrelaçamento das agências intra-atuantes, pois a agência aqui torna-se significativas e encena também um “corte agencial” decretando, segundo Barad (2003) separabilidade agencial, então, não é que não existam separações ou diferenciações, existe sim, apenas dentro das relações. A noção de intra-ação marca uma importante mudança em muitas noções filosóficas fundamentais, como a causalidade, agência, espaço, tempo, matéria, significado, conhecimento, ser, responsabilidade, responsabilidade e justiça.

Fenômenos híbridos, redes actantes ou até mesmo nossas práticas discursivas são frequentemente confundidas com a expressão linguística e muitas vezes o significado são considerados propriedades das falas, são considerados também propriedade dos humanos, mas é aí que as autoras questionam que, se isso fosse realmente verdade, como seria possível levar em conta a construção de fronteiras pela constituição de “humanos” e “não-humanos” ou ainda, estender ou cortas redes? Vejamos a rede de Márcia apresentada por Rohden (2018).

REDE

REDES DE MÁRCIA: médicos, pacientes, eventos científicos e acadêmicos, pesquisa, sites, agências reguladoras, laboratórios, farmacêuticos, farmácias, imprensa, materiais de divulgação, imprensa.

Uma rede é uma imagem adequada para descrever o modo pelo qual se pode unir ou enumerar entidades díspares sem fazer pressuposições sobre níveis ou hierarquias.

SUBJETIVIDADES: Chip hormonal como distinção, vigilância do corpo, transformações corporais, inovações tecnológicas, práticas de engajamento.

INTRA-AÇÃO: Para Barad (2003) são sempre produtores de interferências e, portanto, de diferenças.

NARRATIVAS: Pacientes experto, pacientes especialistas, sujeito medroso, fármacos people. 

HÍBRIDO: Pensando a materialização, as dimensões simbólicas, subjetivas e discursivas não podem ser pensadas diferentes/nem separadas do biológico, orgânico e farmacológico. Temos no híbrido humanos e não-humanos (a ciência como fonte de discurso cultural).

Na teoria Ator-Rede e no realismo agencial as práticas discursivas não fixam fronteiras entre humano e não-humano, pois elas não são atos de fala ou marcadores linguísticos, elas marcam, neste contexto, uma análise genealógica da emergência discursiva do “humano”. As condições materiais são importantes, não porque apoiam determinados discursos que são os fatores geradores reais na formação dos corpos, mas sim porque a matéria vem a importar através da intra-atividade interativa com o mundo em seu devir (Barad, 2003). Para concluirmos, Strathern (2014) complementa que em termos de processo social, socialidades alternantes tornam-se afetadas pela diferença que sustenta os fluxos que se espalham e interrompem os fluxos, assim, conforme Rohden (2018) as incertezas aumentam e permaneceríamos sempre com as associações prováveis de uma rede infinita, possivelmente com cadeias crescendo cada vez mais em complexidades, mas jamais definitivas.

REFERÊNCIAS

STRATHERN, Marilyn. “Cortando a rede. ” In: –. O efeito etnográfico e outros ensaios. Coordenação editorial: Florencia Ferrari. São Paulo: Cosac Naify, 2014, pp. 295-319.

BARAD, Karen. Posthumanist Performativity: Toward an Understanding of How Matter Comer to Matter. Signs: Journal of Women in Culture and Society. Vol. 28, no 3, 2003.

ROHDEN, Fabíola. “Os hormônios de salvam de tudo’: produção de subjetividades e transformações corporais com o uso de recursos biomédicos”. Mana. (RIO DE JANEIRO. ONLINE). v.24, p.199 – 229, 2018.