Os Kachin e Chan pela perspectiva de Edmund Leach

Os Kachin e Chan pela perspectiva de Edmund Leach

Ao dedicar parte de sua pesquisa aos povos da Alta Birmânia, o antropólogo Edmund Leach (1910-1989) discorre sobre os Kachin e os Chan e suas particularidades. Leach foi também aluno de Malinowski e nesta perspectiva entende que as normas devem ser ressignificadas, tanto pela compreensão da estrutura social enquanto dinâmica, bem como pela inteligibilidade dos Kachins com relação ao rito e ao mito, ou, ações rituais.

Leach apresenta-se uma hora estruturalista e noutra hora funcionalista, fica clara em passagens da obra “Sistemas Políticos da Alta Birmânia” a bricolagem que o autor utiliza para constituir o pensamento que evidencia as diferenças entre o real e o ideal dos povos Kachin e Chan.  O ponto de partida que Leach evidencia ao questionar-se se haveria apenas um tipo de estrutura social na região Kachin ou ainda mais de uma forma de organização social é o que motiva o diálogo constante com outros pensadores como Durkheim, Radcliffe-Brown, Marcel Mauss e Lévi-Strauss.

Uma das primeiras críticas surge no contexto em que Leach (1997) contesta como o conceito de estrutura social empregado por Radcliffe-Brown em seu equilíbrio estável que perdura no tempo e espaço na comparação de uma sociedade e outra. Uma das aproximações de RB e Leach é que para ambos o estudo da estrutura social é a partir da realidade concreta através do conjunto de relações existentes, e que nas observações diretas tenta-se descrever algumas particularidades.

Um dos distanciamentos é que a realidade concreta observada em sua forma estrutural dá-se pela narrativa do antropólogo no “campo”, para RB pode tornar-se clara a continuidade da estrutura social através do tempo, mesmo não estática, como uma estrutura orgânica. RB diz que a variação geracional de um mesmo grupo não altera a estrutura dos membros em sua organicidade. A continuidade da estrutura permanece. 

Para Leach, quando a estrutura social de um grupo se expressa através de representações culturais, a imprecisão é empregada. A inconsistência e as incongruências da expressão ritual tornam-se necessárias para qualquer sistema social. Para o autor, é através da representação simbólica que o antropólogo descreve as estruturas lógicas presentes em sua mente, sendo sempre um trabalho dificultoso agregar os modelos conceituais à realidade empírica, pois “as sociedades reais existem no tempo e espaço”. Assim, a continuidade da ordem formal existente (hereditariedade) pode contrapor-se a uma mudança na estrutura formal, ou outro sistema de estrutura e organização social.

 A variedade dos sistemas políticos que compõe o estado Kachin propicia a contínua mudança estrutural e grupos que antes eram maiores tornam-se menores e vice-versa. Este processo não encerra em si mesmo tanto no tempo e espaço, está em constante dinâmica e esta descrição é a que Leach busca apreender com os povos Kachins. Por isso, ele destaca que o antropólogo enquanto pesquisador deve deixar sempre claro o recorte temporal para que a análise de equilíbrio seja referenciada, pois “quando um antropólogo tenta descrever um sistema social, ele descreve necessariamente apenas um modelo de realidade social” (LEACH, 1997, p. 71).

Para Leach, a realidade é cheia de incongruências e caos e exemplifica através dos povos investigados. Na política, os Kachins vivem de duas formas: uma delas é o Chan, baseado em um sistema hierárquico feudal e o outro é o sistema gumlao (denominado pelo próprio autor) sendo anarquista e igualitário. Mas a maioria das comunidades Kachins é de ordem gumsa, em que o comprometimento gumlao e chan se unifica.  Por isso, o gumsa, não é estático e predomina nos relatos etnográficos já produzidos, embora para Leach este sistema seja incompreensível, contudo, pode se tornar visível no contraste do gumlao e chan.

As mudanças estruturais nestes sistemas mexem com a posição dos indivíduos enquanto status social e no próprio sistema ideal ou mudanças na estrutura de poder. O movimento do grupo e dos membros, nesse sentido, é adquirir poder através das escolhas, assim o caminho e o acesso para a jornada tendem ao reconhecimento como pessoas sociais carregadas de poder e status social. Desta maneira, um mesmo indivíduo pode estar em distintos sistemas de apreço e estes não dialogarem entre si. Para motivar estas argumentações, Leach (1997) parte das ações rituais dos povos Kachins.

Fica claro que para o autor o papel do antropólogo é tentar descobrir e traduzir aquilo que está sendo representado e simbolizado não apenas através das dicotomias entre sagrado e profano, mas também através das ligações estéticas e das ações funcionais como aspectos de uma ação. Mito e rito se fundem como ação e/ou conteúdo da crença. Para concluir, o antropólogo coloca que a ação ritual deve ser entendida como uma afirmação simbólica sobre a ordem social, mas que seu posicionamento perante a abstração da representação é que a materialidade do mundo sempre poderá ser observável, nunca possível com a metafísica ou sistemas de ideias (LEACH, 1997, p. 76-77).