Os desafios contemporâneos da produção do conhecimento: o apelo para a interdisciplinaridade. (Claude Raynaut)

Os desafios contemporâneos da produção do conhecimento: o apelo para a interdisciplinaridade. (Claude Raynaut)

RESUMO: Estamos atravessando hoje um momento de reconstrução radical na forma de se pensar tanto o mundo material dentro do qual vivemos e atuamos como a relação que nós, Seres humanos, estabelecemos – individual ou coletivamente – com esse mesmo mundo. O movimento que está acontecendo agora apela por novos paradigmas, novas categorias de pensamento, novas metodologias de pesquisa, novas formas de ensino. Fronteiras conceituais estabelecidas entre áreas de conhecimento distintas tornam-se permeáveis. Trocas e ajustes metodológicos são necessários. O apelo para a colaboração interdisciplinar se expressa hoje com cada vez mais força. Até hoje, não se encontra uma definição da interdisciplinaridade que seja consensual, e menos ainda uma doutrina estabelecida que possa ser aplicada ao trabalho de campo. Torna-se, então, imprescindível contribuir a clarificar as bases teóricas e metodológicas sobre as quais se pode construir um projeto de prática concreta da interdisciplinaridade no domínio do ensino e da pesquisa.

A questão da necessidade de ultrapassar as fronteiras disciplinares, para poder conseguir entender problemas do mundo contemporâneo que não se deixam encaixar em domínios e categorias de pensamento estanques, agita a comunidade acadêmica e científica em todos os países que desempenham hoje um papel  significativo na produção do conhecimento.

Precisa-se explorar a diversidade de significados, de interpretações divergentes, que veicula consigo uma mesma noção, uma mesma palavra: a de interdisciplinaridade. A confusão não nasce da diversidade, quando ela é devidamente reconhecida e pensada, mas, sim, da incapacidade a identificá-la e aceitá-la.

No domínio da pesquisa e da inovação, pode-se dizer que foi nos laboratórios industriais que se iniciou a prática interdisciplinar.  O programa de pesquisa da  companhia Bell, nos Estados Unidos, durante os anos 30, oferece um exemplo muito ilustrativo do fenômeno. Antecipando o papel crucial dos novos materiais, o departamento da pesquisa e do desenvolvimento contratou especialistas oriundos de especialidades disciplinares muito diversificadas: química, física dos metais, do magnetismo, da eletrônica, da cristalografia e da mecânica quântica.

Essas formas de interdisciplinaridade (na indústria ou na academia), apresentam um caráter pragmático, pontual – organizando-se de modo oportunista  para resolverem um problema particular, mas preservando a integridade, a especificidade, de cada disciplina.

A problemática da interdisciplinaridade coloca-se em termos bem distintos, quando se trata de fazer colaborar as ciências da “materialidade” com aquelas cujo objeto de estudo são as realidades humanas: tanto ao nível dos indivíduos (psicologia) quanto das sociedades (história, sociologia, economia).

Por outro lado, as ciências humanas, sociais e psicológicas não aceitam facilmente a ideia de que a realidade não material que constitui seu objeto de estudos – relações sociais, ideias, símbolos, sentimentos – é arraigada num alicerce de materialidade. A própria existência do universo imaterial sobre o qual trabalham as ciências humanas e sociais é condicionada pelas bases materiais que a possibilitam. Mas, aceitar isso não implica no reconhecimento do determinismo da materialidade sobre a imaterialidade.

Com a complexificação e a hibridação da realidade contemporânea, torna-se cada vez mais evidente que as dimensões humanas e materiais dos problemas aos qual a ciência se enfrenta estão estreitamente intricadas. Neste contexto, a colaboração entre ciências da materialidade, tecno-ciências e ciências humanas é mais do que nunca imprescindível.

a) NECESSIDADE DE UM QUADRO CONCEITUAL INTEGRADOR =>

Para que tal diálogo, tal esforço de compreensão mútua não conduza a uma confusão intelectual, é necessário esclarecer o quadro conceitual dentro do qual se posicionam os dois grandes universos conceituais.  Para isso, podemos propor um modelo heurístico que resume de modo simplificador, mas esclarecedor, os dois “campos”, as duas faces distintas da realidade sobre os quais os dois grupos de disciplinas trabalham.

O CAMPO DAS RELAÇÕES FÍSICAS E BIOLÓGICAS, que compreende o conjunto de relações biológicas e físico-químicas tecidas no bojo dos grandes domínios de organização biológica, como a atmosfera, pedosfera, hidrosfera e geosfera. Ela inclui também uma parte fortemente artificializada da materialidade, a ponto de ser, às vezes, como os objetos técnicos, as cidades, os novos materiais, um produto direto da ação humana (um artefato). São frutos da ação humana – dos pensamentos, dos desejos humanos – mas não deixam de permanecer submetidos a processos da mesma ordem dos meios físicos e biológicos.

O CAMPO DAS RELAÇÕES NÃO-MATERIAIS. Ele compreende o conjunto de processos cuja articulação participa na organização, na reprodução e na transformação das representações mentais do mundo e dos modos de estruturação das relações sociais. Aqui, os fatos que o olhar científico busca identificar, descrever e compreender remetem a processos de produção, de circulação e de transmissão do sentido tanto no ponto de vista da cultura coletiva (representações, valores, normas) quanto dos intercâmbios entre atores sociais. Esses processos desempenham um papel determinante na história de qualquer sociedade e permanecem, em grande parte, autônomos em relação às determinações biológicas e físico-químicas. As ideias têm a capacidade de engendrar outras ideias. Relações sociais criam condições (tais como tensões, conflitos, solidariedades, construção de identidades, etc.) para a emergência de novas relações sociais.

Mais do que nunca, como o analisamos acima, as sociedades modernas se defrontam com realidades híbridas, que resultam da interação acelerada entre os avanços das ciências ou das técnicas e a apropriação desses avanços ao serviço dos desejos e sonhos individuais e coletivos.

Se a interdisciplinaridade já começa quando colaboram com disciplinas que compartilham um mesmo universo, o desafio se torna muito maior ainda na hora de fazer trabalhar junto ciências que exploram os dois grandes campos inconfundíveis da materialidade e da imaterialidade.

b) FACETAS DE UMA FORMAÇÃO INTERDISCIPLINAR =>  Um objetivo realista para uma formação interdisciplinar reside em proporcionar a especialistas, dotados de alto nível de formação na sua disciplina, as competências para colaborar, trocar informações, trabalhar coletivamente com cientistas ou técnicos também muito qualificados na sua área de conhecimento e esperteza.

Os modos de enfrentar e superar tal desafio pedagógico constituem um tema de reflexão em si. Em breve, tais objetivos fundamentais são:

  • Abrir as mentes e baixar as barreiras intelectuais: desenvolver, em cada aluno, um olhar crítico sobre a atividade de produção do conhecimento em geral e sobre sua própria disciplina em particular; criar as condições iniciais de um diálogo entre especialidades científicas distintas.
  • Favorecer uma convergência de olhares: convém progredir na aprendizagem dos instrumentos conceituais e metodológicos que viabilizarão a construção de algo novo: um novo modo de cooperar e cruzar os olhares. O objetivo, nessa etapa, será conduzir os alunos à tomada de consciência da necessidade de interagir com outros especialistas, de lançar pontes entre os modos de abordar e tratar os problemas.
  • Proporcionar a aprendizagem de práticas e instrumentos concretos: O objetivo aqui é permitir cruzar, articular e integrar dados heterogêneos. Os métodos e instrumentos a serem chamados variarão assim em função do tipo de interdisciplinaridade alvejado, do perfil dos alunos e dos assuntos tratados.

02 TEXTO: Construção coletiva do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC.

Em 20 abril de 1990 foi encaminhada a todos os professores do Centro uma circular da Direção que apresentava as decisões do colegiado do Centro. O grupo de trabalho foi criado em 21 de maio de 1990.

As discussões que se formavam a partir do grupo de trabalho foram coordenadas pelo professor Selvino Assmann.

O grupo de trabalho fazia estudos de textos que discutiam a interdisciplinaridade, ao mesmo tempo em que se constatava a insatisfação dos docentes apenas com as abordagens disciplinares.

            A temática escolhida, além de agregar um grupo de pesquisadores do CFH, pretendia abordar a questão ambiental, desde a perspectiva nas ciências humanas e da Filosofia, fazendo-a emergir como temática além das Ciências Biológicas e das diferentes áreas da tecnologia.

Em 17 de dezembro de 1992, no auditório do CFH, foi realizado um “ato de fundação” do Programa de Doutorado Interdisciplinar do CFH – Sociedade e Meio Ambiente.

– Eric Hobsbawm e Octavio Ianni se fizerem presentes no ato.

Sobre a metodologia de formação dos doutores interdisciplinares, a comissão ao elaborar o projeto entendeu que não deveria definir uma “teoria de integração científica” nem uma concepção fechada ou única do que seria interdisciplinaridade. Por isso, se falava de “perspectivas” mais que um “método de investigação”. O que se queria fazer era uma experiência, aprender a falar a língua de outra ciência. 

Em 1994 foi aprovado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFSC e as aulas foram marcadas para março de 1995. O coordenador passou a ser o professor Selvino Assmann. A primeira tese defendida pelo programa foi apenas em 1999 quando este já havia sido reconhecido pela Capes.

Algumas características do programa:

  • A presença de vários professores nos seminários permitia a aprendizagem de outra perspectiva para o mesmo objeto.
  • O programa desenvolveu uma série de atividades como: palestras, conferências e seminários com renomados pesquisadores nacionais e internacionais e discutiam as relações da sociedade com o meio ambiente e, em especial, refletir sobre a interdisciplinaridade.
  • Outra prática estabelecida do curso foi a de exigir que cada tese tivesse foi orientadores, sendo o co-orientador oriundo de disciplinas diferentes.

Algumas curiosidades do programa:

  • Na gestão da profa. Dra. Clélia Shulze foi feita uma mudança radical no Programa. Este deixou de ser concentrado em Sociedade e Meio Ambiente, passando para o Doutorado em Ciências Humanas.
  • Envolvia três áreas de concentração: Estudos de Gênero, Condição Humana na Modernidade e Sociedade e Meio Ambiente.
  • Foram criados duas revistas: Cadernos de Pesquisa e Interthesis, revista eletrônica interdisciplinar.

Professora Carmen Rial: na gestão da professora Dra. Carmen Rial foram tomadas as seguintes iniciativas: a elaboração de um dossiê sobre a interdisciplinaridade que deveria ser publicado em uma das revistas do programa.

Essa pesquisa, iniciada na disciplina de “Epistemologia e Metodologia de pesquisa Interdisciplinar” tinha como objetivo que os próprios doutorandos  discutissem a interdisciplinaridade através do levantamento de teses já defendidas, e de entrevistas com os professores do programa.

03 TEXTO: Especificidades e desafios da interdisciplinaridade nas ciências humanas. (Héctor Ricardo Leis)

SOBRE O CONCEITO: a interdisciplinaridade se apresenta como uma questão central do trabalho científico contemporâneo. Ainda carece de uma reflexão aprofundada para os problemas epistemológicos e metodológicos.

O termo interdisciplinaridade aparece registrado publicamente, no início do século XX, na reforma curricular das universidades norte-americanas.

Existe um consenso sobre o fenômeno. A abordagem mais comum tende a ver a interdisciplinaridade como um processo de resolução de problemas, ou de abordagens de temas, que por serem muito complexos, não podem ser trabalhados por uma única disciplina.

Outros autores: alguns tentaram ir além dessa visão para reivindicar a importância do aspecto cognitivo da interpretação e do entendimento.

Hegel: o esforço conceitual que exigiam os estudos interdisciplinares pode ser ilustrado através de uma visão hegeliana. Hegel faz referência ao “esforço conceitual” como um movimento dialético de apreensão das diferenças em uma totalidade que não as anula, mas potencializa e se eleva em outro patamar.

A prática interdisciplinar supõe o equilíbrio de uma visão integrada de diversas disciplinas e um salto cognitivo que não esteja pressuposto em qualquer somatória de abordagens disciplinares.

Alguns autores tentaram diferenciar, fenomenologicamente, três formas de interdisciplinaridade:

1) instrumental

2) conceitual

3) crítica

1) INSTRUMENTAL: implica uma abordagem pragmática de problemas concretos. Centrada em produzir resultados de pesquisas pelos meios disciplinares possíveis.

2) CONCEITUAL: pode ser associada ao salto cognitivo. Essa abordagem supõe uma crítica explícita aos conteúdos das perspectivas disciplinares.

3) CRÍTICA: embora não apareça explícito na literatura está genealogicamente associada à teoria crítica desenvolvida pela  Escola de Frankfurt.

Enquanto as disciplinas possuem uma tradição epistemológica consolidada, que lhes permite avaliar com relativo vigor as pesquisas de suas áreas, no campo dos estudos interdisciplinares não existe regras predeterminadas que possam ser aplicadas rigidamente ao processo de avaliação.

É POSSÍVEL DETECTAR AS BASES CULTURAIS QUE SE SITUAM POR TRÁS DE ALGUNS MOVIMENTOS IMPULSIONADOS DA INTERDISCIPLINARIDADE:

– estaria associado à cultura científica francesa, que pode ser qualificada como lógico-racional, centrada na busca de significado.

– estaria associada à cultura científica anglo-americana, do tipo metodológico, que remete a uma preocupação marcada pela lógica instrumental.

– associado a uma cultura científica brasileira emergente, que privilegia as relações humanas e afetivas, expressando uma lógica subjetiva dirigida à procura do próprio ser.

A interdisciplinaridade pode ser definida como um ponto de cruzamento entre atividades disciplinares, multidisciplinares e transdisciplinares, com lógicas e histórias diferentes.