O uso do smartphone como subjetivação e controle

O uso do smartphone  como subjetivação e controle

Deleuze escreve no fragmento “Dúvidas sobre o imaginário” (2008) questões sobre imagem-movimento problematizando a lógica do sentido referindo-se ao cinema. A ideia é de um conjunto aberto e infinito entre linguagem e imagem. Para tanto, lança a seguinte questão: – podemos considerar o universo como cinema em si? Partindo deste questionamento provoco a seguinte dúvida: – é possível considerar o universo como uma selfie em si? Respostas surgiriam partindo de uma análise semiótica (ainda inédita) ou até mesmo de reflexões psicanalíticas, apenas como ideias a serem trabalhadas, mas que não é o caso aqui. Assim, conclui Deleuze ao dizer que “o que se poderia chamar de ideias são essas instâncias que se efetuam ora nas imagens, ora nas funções, ora nos conceitos” (2008, pg. 83). Assim, neste primeiro momento, reafirmo que este exercício são ideias em que busco articular a teoria de Michel Foucault e o uso do smartphone como subjetivação de si através da representação do corpo no aplicativo Tinder.

O Brasil encerra 2015 com 280 milhões de telefones celulares[1], usuários jovens são de 50 milhões e destes 10 milhões usam o aplicativo Tinder para relacionamentos e encontros casuais. É neste contexto particular que a pesquisa busca avanço nos desdobramentos do self e das subjetividades a partir do uso dos smartphones pelos jovens que acessam o Tinder. 

 Aplicativo Tinder foi criado por estudantes da Universidade da Califórnia em 2012 com o objetivo de unir pessoas com mútuo interesse. O Tinder rapidamente se disseminou pelo mundo tornando-se popular no Brasil em 2014 durante a Copa do Mundo de Futebol. Em apenas três anos, segundo o blog oficial do aplicativo[2], mais de dez bilhões de combinações foram realizadas, constituindo assim novas práticas afetivas no ciberespaço.

A partir de novembro de 2015, novas ferramentas foram inseridas no aplicativo que passou por reformulações para capacitar os usuários em conexões mais significativas através de algoritmos inteligentes desenvolvidos para o próprio Tinder. Outras informações dos usuários do Tinder podem ser vinculadas às contas do Facebook e Instagram, pois para realizar cadastro no aplicativo é necessário que se tenha uma conta no Facebook. O Instagram possibilita maior visibilidade das fotos, já que no app somente seis fotografias podem ser postadas no perfil do usuário.

Desde que iniciei minha observação participante no Tinder (agosto/2015), a construção do meu perfil dentro do aplicativo possibilitou dar continuidade a investigação, pois foi possível colocar na descrição do meu perfil o objetivo da investigação. Como o Tinder é um aplicativo para encontros, logo os usuários preferem estabelecer novas conversas em outras plataformas como Facebook ou Whatsapp. Assim, a clássica localidade de um grupo a ser estudado, conforme a antropologia clássica, lança desafios no mundo virtual. Desta maneira, conforme Marcus (2001), saímos de situações locais da investigação etnográfica convencional e partimos para a interpretação dos significados, objetos e identidades em um espaço tempo-difuso.

As múltiplas localidades investigadas a partir do aplicativo Tinder desenvolvem estratégias para delinear “uma arquitetura contextual” que são entregues pelos sujeitos em seus perfis públicos. Para Marcus, uma “etnografia móvel toma trajetórias inesperadas” (2001, p. 112). Percebo que para além do uso do Tinder novas plataformas e redes sociais são acionadas e acabam por contribuir em novas conexões e associações de sujeitos em diversas localidades no espaço virtual.

Ao aproximar-me da reflexão de Leitão (2011) procuro compreender através das narrativas do corpo um lugar de reflexão de como os aplicativos de smartphones revelam além de um imaginário social alguns sistemas simbólicos contemporâneos: como as selfies no Tinder. Então, a partir do “minúsculo” identifico apenas um aspecto do mundo virtual, conectado e móvel: o corpo nas selfies no ciberespaço como narrativas do eu através da construção do próprio usuário enquanto perfil público. Quando a autora afirma que as “narrativas sobre a gênese de uma atividade sociotécnica e sobre a origem mítica das maneiras de fazer são recorrentes em muitas sociedades” (LEITÃO, 2011, pg. 255-285), a aparição das selfies nas redes sociais a partir das câmeras dos smartphones se mescla com a história e evidencia a centralidade do construir nesse ambiente virtual a representação do corpo. Para Rabinow & Rose há modos de subjetivação pelos quais os indivíduos atuam sobre si próprios:

Modos de subjetivação, através dos quais os indivíduos são levados a atuar sobre si próprios, sob certas formas de autoridade, em relação a discursos de verdade, por meio de práticas do self, em nome de sua própria vida ou saúde, de sua família ou de alguma outra coletividade, ou inclusive em nome da vida e da população como um todo (RABINOW; ROSE, 2006, pg. 29).

Novos olhares surgem ao explorar a forma de como os jovens usam seu smartphone para gerir as emoções e apresentação de si através do corpo no aplicativo Tinder. Desta maneira, o telefone celular aparece como um companheiro para lidar com todos os tipos de emoções eletrônicas do usuário que está sempre na presença do dispositivo, o qual usa para compartilhar sentimentos, partes do corpo, às vezes íntima, na busca por relacionamentos. Assim, pode-se ter como essencial da prática de fidelidade ao tirar a selfie o estrito respeito das obrigações nos próprios atos que realiza de fotografar a si e para si (FOUCAULT, 2012, pg. 35). Com a difusão dos dispositivos móveis, se estabelece reflexões ao compreender as implicações na constituição das subjetividades e na apresentação de comportamentos favorecidos pelos encontros virtuais e, ou, na busca deles.

Para Daniel Miller (2015) a fotografia selfie é sinal da cultura globalizada instantânea como uma imagem reconhecida pelo mundo não pelo ponto de vista do global ou local, mas um levantamento de novos debates sobre o teórico que se relaciona com novas tecnologias digitais e que se ampliam simultaneamente no online os aspectos da universalidade e das particularidades.

Para outros pensadores como Lipovetsky (2014), a selfie é um exemplo de individualismo, mas de forma paradoxal, pois há uma busca incessante pela aprovação dos outros em curtidas, compartilhamentos e comentários online. O autor entende que as pessoas que postam selfies em seus perfis seriam narcisos incompletos sempre na busca pela recompensa simbólica, no caso desta pesquisa, essa recompensa seria de mais combinações com usuários do Tinder para futuras conversas e encontros. Consequentemente é possível compreender a partir da visão de Lipovetsky que as selfies compartilhadas nos perfis públicos do Tinder contribuem para a proliferação da cultura narcisista, e relacionam-se com outros aspectos da contemporaneidade como a moda e a publicidade. Deste modo, para Lima (2015) o narcisismo contemporâneo conta com condições subjetivas e objetivas que circulam pelas próprias mídias sociais e aplicativos para celular através das selfies. Para Lima, a cibercultura abre espaço na cultura do consumo para um campo de criação e expressão de subjetividades. A ideia que a selfie perpassa a cultura narcisista é reproduzida amplamente na academia.

A história das ideias se atribui a tarefa de penetrar as disciplinas existentes, tratar de reinterpretá-las. Constitui, pois – mais do que um domínio marginal –, um estilo de análise, um enfoque (de que a selfies são de pessoas narcisistas) (FOUCAULT, 1987, pg. 157).

Para posições positivas e negativas quanto à proliferação de selfies como exacerbação de um individualismo como evento-chave da modernidade e pós-modernidade revelam-se subjetividades do próprio self, como bem coloca Rose (2011) ao abordar nosso regime moderno do self, ou seja, nossa relação com nós mesmos, que para ele tem entendimento interiorizado, psicologizado e totalizado. Para Foucault (1987, pg. 51) , as condições históricas para que se possa comentar sobre algo significa que não se pode falar de qualquer coisa em qualquer época, para ele não é fácil dizer alguma coisa nova, assim como as análises sobre as selfies que atravessam o mundo apenas sob um ponto de vista.

A fotografia selfie é uma experiência que tem como objeto as maneiras de ser humano, agregando tecnologias – como smartphones e aplicativos – assumindo a forma de uma elaboração de si para a relação consigo mesmo quando incorporadas em estética, visibilidade e sociabilidade online. A selfie por si só não representa apenas uma técnica de se tornar humano perante o outro “mas apenas uma maneira pela qual os humanos têm sido levados a entender a si mesmos e a se relacionar consigo mesmo” (ROSE, 2011, pg. 49).

Quanto às subjetividades que se relacionam a respeito das selfies no Tinder e no perfil de outras redes sociais e aplicativos está ligada à emergência de uma série de novas práticas sociais que buscam novas maneiras de informar ao mundo suas emoções, seu corpo, seu reflexo no espelho operando como novas formas de entender-se a si próprio. Conforme Rose (2011) a instrumentalização dos desejos de maximização das formas cotidianas de existência perpassam as selfies as quais subjetivam autonomia, liberdade, escolha, autenticidade “e está ligada não somente a uma analítica do nosso regime de self, mas também as questões éticas dos custos e benefícios das nossas relações atuais com nós mesmos e à estratégia que podemos inventar” (ROSE, 2011, pg. 315). Apresento um caso da pesquisa em desenvolvimento e de como estou percebendo as selfies.

O encontro no Tinder com Jeferson (nome fictício) aconteceu no dia 16/09/2015. Depois de “combinados”, conforme o aplicativo abre-se a janela para bate-papo com a foto ao lado. Após uma breve conversa de meia hora, apresentei o contexto da pesquisa. No decorrer deste tempo o usuário preferiu trocar a plataforma para conversar novamente. Assim, nos adicionamos no Facebook e começamos um novo diálogo, ainda sobre a apresentação da pesquisa. Já no Facebook, tive acesso às informações que não são do perfil público e novas informações surgiram entregues pelo meu interlocutor ao me aceitar como amiga nesta rede social. Ao mesmo tempo em que conversava com Jeferson, pude analisar o álbum de fotos da família e gostos pessoais.

Espaços, plataformas, redes sociais e aplicativos justapostos em um espaço virtual combinados em um mesmo tempo difuso, ou seja, diferente de perguntas e respostas online, pois no momento em que digitava algumas perguntas o interlocutor às vezes respondia prontamente e em outras ocasiões demorava até mais de uma hora para retornar ao ponto em que havíamos conversado na última vez. Ao pensar a etnografia multi-situada dentro das investigações sobre novas modalidades de comunicação virtual, como a internet, Marcus propõe uma visão multilocal para investigar o domínio transnacional, desafiando práticas de “localizar” cultura em lugares, no meu caso, lugares online. Empresas como o Tinder, Facebook, Whatsapp estimulam e mostram novas reflexões e novos desenhos da pesquisa no virtual e novas formas de compreensão do self desfragmentado em múltiplos ambientes online.  

Ao dialogar aproximadamente com 50 usuários do Tinder desde agosto de 2015, estabeleci reflexões acerca de como realizar entrevistas abertas e semi-estruturadas no online tendo como método a etnografia virtual. Conforme Boni e Quaresma (2005) a entrevista é uma das técnicas mais utilizadas nas pesquisas qualitativas e que estabelece uma relação direta entre o entrevistador e o entrevistado. As escolhas dos entrevistados se deram em função das combinações dos encontros virtuais no Tinder. Os meus acessos ao aplicativo desde a criação da minha conta (agosto/2015) foram diários e durante algumas horas por dia busquei estabelecer relações de proximidade com os usuários que combinavam comigo. Conforme coloca Boni e Quaresma (2005, pg. 72) a escolha dos entrevistados deve partir da familiaridade que este tem com o objeto a ser investigado, assim, foram jovens que tiveram primeiramente interesse no meu perfil e posteriormente na pesquisa. Logo após os primeiros contatos outras formas de comunicação aconteceram.  Com o Eduardo (18 anos), o meu número de celular foi solicitado para saber se eu era real, juntamente com o link do meu currículo Lattes. Outros usuários acionavam o bate-papo mais rapidamente que eu e já enviavam questões referentes à pesquisa.

Especificamente quanto à técnica das entrevistas utilizadas até o momento utilizei entrevista aberta, em que posso conversar durante tempo indeterminado com alguns usuários, tanto no Tinder quanto em outras plataformas através de diálogos curtos e linguagem informal.  Assim, os jovens brincam com a língua e infringem regras gramaticais convencionais de ortografia e acentuação. A Internet e o chat de bate-papo do aplicativo Tinder proporcionam uma liberdade de expressão linguística em que os usuários combinam novos elementos gramaticais com regras diferentes das utilizadas na língua escrita culta. O tamanho da tela do celular e o limite de caracteres para o envio de mensagens definem a capacidade linguística de recepção, tanto de quem escreve e envia quanto quem recebe e lê. Formas de expressão facial são criadas através dos smiles, como J ou L, para citar os mais comuns. Estas formas lúdicas de representar as emoções são extremamente engenhosas e artísticas, e são usadas frequentemente para transmitir humor, ânimo ou sentimento, novas formas discursivas e de enunciados se apresentam para além do signo da imagem da selfie primeiramente analisada.

Principalmente nos primeiros contatos, alguns usuários apesar de concordar com as entrevistas ainda acreditavam que seria possível existir algum tipo de relação sexual com a pesquisadora, estas são algumas particularidades pela escolha do objeto de estudo (aplicativo de relacionamento) a ser estudado. Meinerz (2007, pg. 93) nos atenta para os dilemas metodológicos, teóricos e éticos que compõe a relação entre a pesquisadora e o grupo pesquisado. Embaraços e saias justas foram constantes no decorrer da observação participante e durante este percurso foi fundamental a compreensão das dificuldades que se estabelecem em um diálogo virtual através de negociações e esclarecimentos nem sempre aceitos. Foucault esclarece que:

Com respeito ao sexo, o poder jamais estabelece relação que não seja de modo negativo: rejeição, exclusão, recusa, barragem ou, ainda, ocultação e mascaramento. Seus efeitos tomam a forma geral do limite e lacuna. (FOUCAULT, 2013, pg. 93).

Nesse momento percebia um estranhamento por parte do entrevistado frente à negação para facilitar encontros casuais que não fizessem parte da investigação. Conforme Meinerz, “a aproximação voluntária e a convivência com o grupo criam sempre uma série de expectativas às quais, sabemos que não podemos corresponder, suas classificações são contraditórias e nos colocam dilemas morais e éticos” (MEINERZ, 2007, pg. 96).

Posteriormente aos primeiros momentos de bate-papo no Tinder, cerca de 50 usuários concordaram em responder um questionário online com dez perguntas sobre o Tinder e as selfies que compunham o perfil de cada um. Algumas considerações puderam ser traçadas para o aprofundamento posterior da pesquisa como a adesão dos jovens santa-marienses pelas selfies, pois dos 50 entrevistados 37 tiram selfie todos os dias e dão preferência para que esta foto seja de perfil do aplicativo. Geralmente as selfies exibem partes do corpo.

Figura 2 Selfies perfil público no Tinder

O cenário social em que o usuário remete a si mesmo está informado na selfie em uma experiência que revela generalidades, particularidades na presença imediata do outro no ciberespaço. Para Foucault a verdade sobre si não pode ser atingida sem certa prática ou certo conjunto de práticas totalmente especificadas que transformam o modo de ser do sujeito, modificam-no tal como está posto, qualificam-no transfigurando-o, é um tema pré-filosófico que deu lugar a numerosos procedimentos mais ou menos ritualizados. (FOUCAULT, 2006, pg. 9).

A Selfie implica certa relação a si, essa relação não é simplesmente “consciência de si”, mas constituição de si enquanto sujeito moral, na qual o individuo circunscreve a parte dele mesmo (partes do corpo) que constitui o objeto dessa prática moral (smartphone) estabelece para si certo modo de ser; e, para tal, age sobre si mesmo, procura conhecer-se, controla-se, põe-se à prova, aperfeiçoa-se, transforma-se. (FOUCAULT, 2012, pg. 37). 

Em todo o caso, o pequeno continuum temporal da individualidade-gênese parece ser mesmo, como a individualidade-célula ou a individualidade-organismo, um efeito e um objeto da disciplina. Dirigindo o comportamento para um estado terminal, o exercício (da selfie) permite uma perpétua caracterização do indivíduo seja em relação a esse termo, seja em relação aos outros indivíduos. (FOUCAULT, 1997, pg. 155).

Essa expressão de si, através da selfie, é intencional e conscientemente impresso pelos esforços de mostrar a intencionalidade bem desenvolvida da capacidade de manipular seu próprio comportamento permitindo uma projeção e uma definição da situação do momento em que aparece diante dos outros usuários no aplicativo Tinder. À medida que a interação dos usuários progride, ocorrem modificações das plataformas de comunicação e novas subjetividades são despontadas bem como formas discursivas reveladas.

A pesquisa proposta dentro do PPGCS busca estabelecer diálogo e aproximação com os estudos da antropologia digital e da cibercultura contemplando a construção do Eu como processo de subjetivação de si. A construção da pesquisa envolve questões relacionadas ao corpo, tecnologia, ciência, práticas sociais, relações afetivas, formas de comunicação falada, textual e imaginária e outros processos que perpassam os usos e apropriações do smartphone.

2) O uso do smartphone como vigilância e controle

Desde 2011 iniciei os estudos pelos modos os quais jovens de camadas populares utilizavam o telefone celular no espaço escolar em uma cultura da convergência. Foi constatado que o capital social dos jovens se ampliou pelo telefone móvel e pelas redes sociais embora não ultrapassasse os limites de classe.

Assim, o isolamento do grupo em relação a outros na medida em que a noção de pertencimento se baseava em subjetividades e, como tal, dar visibilidade aos aspectos individuais e emotivos da vida privada assim são partilhados em uma noção de estilo de vida. Uma das conclusões do meu estudo anterior no curso de Pós-Graduação em Comunicação (DUTRA, 2014) é que a condição econômica, o baixo capital cultural e a ausência de participação em atividades coletivas possivelmente tenha relação com o uso individualizado do aparelho, que se converte em uma tecnologia expressiva do Eu e do grupo restrito de pares.

Através do celular celebra-se o bem-estar, o conforto, a saúde, a beleza, a juventude, o equilíbrio, a mobilidade, a velocidade, a liberdade, a diferença, a igualdade e uma série de outros valores que estão menos ligados à disputa por poder e distinção, que à elaboração de si, a constituição da personalidade, à experiência individual e psicológica.

Desta maneira, minhas barreiras ultrapassadas foram: visualizar o celular apenas como um objeto técnico para fixar nomes e lembranças; pensar para além da legitimidade da cultura juvenil diante da parental pelos usos e apropriações dos smartphones e refletir sobre a produção própria de conteúdo de ambas as gerações; deixar de compreender este artefato cultural da contemporaneidade apenas como símbolo da convergência dos meios e como distinção social entre os sujeitos.

Ao discutir os usos do celular em sala de aula como fator indisciplinar pela instituição escolar, Moraes (2008) debate as práticas como formas de subjetivação. Apoiado em Foucault, Moraes entende que a posse do aparelho móvel e o acesso a ele no espaço fechado em sala de aula são, antes de tudo, uma luta contra a disciplina e a vigilância.

Por meio da sujeição, um novo objeto vai-se compondo e lentamente substituindo o corpo mecânico – o corpo composto de sólidos e comandado por movimentos, cuja imagem povoara os sonhos dos que buscavam a perfeição disciplinar. Esse novo objeto é o corpo natural, portador de forças e sede de algo durável, é o corpo suscetível de operações especificadas,que tem sua ordem, seu tempo, suas condições internas, seus elementos constituintes – corpo do exercício mais do que da física especulativa (FOUCAULT, 1997, pg. 149).

Os jovens portadores de seus aparelhos em aula desestabilizam as relações de poder entre aluno e professor, já que, “na escola, as práticas de disciplinarização atravessam seu cotidiano, normalizam e punem os atos com exatidão, diferenciando e classificando os indivíduos dentro dos seus limites territoriais” (MORAES, 2008, p. 17). Segundo o autor, surge a partir do uso do celular em sala de aula uma nova forma de poder: o controle.

Meios de controle flexíveis, que dialoguem com os fluxos e aparatos comunicacionais rivalizam com as práticas escolares de confinamento, enquadramento e vigilância, pois “os métodos tradicionais da escola restritos a quatro paredes, como a palavra, o giz, o quadro-negro, a leitura, a escrita, não são mais do que uma ilhota em meio aos fluxos de informações, apelos e solicitações prementes de um universo digital em tempo real” (MORAES, 2008, p. 19).

A escala, em primeiro lugar, do controle: não se trata de cuidar do corpo, em massa, como se fosse uma unidade indissociável, mas de trabalhá-lo detalhadamente, exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao mesmo nível da mecânica. Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõe uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”. (FOUCAULT, 1997, pg. 133).

Ao sentir a perda da liberdade da disposição dos bens (celular), o aluno reincide e acentua o “delito” dentro de sala de aula. A reincidência e o domínio do porte de aparelhos pelos alunos está sob proibição de Leis no Brasil.O deputado estadual de São Paulo, Orlando Morando[3], criou a Lei 12.730, que proíbe o uso de celulares em sala de aula. Segundo ele, “tivemos muitas queixas de professores devidos os alunos conversar no celular em sala de aula, trocar mensagens de texto ou mesmo ouvir música”. Na Paraíba, em nota da Assembleia Legislativa, o projeto de Lei 282/2007, do deputado estadual Nivaldo Manoel[4], também proíbe o uso dos celulares em aula. Para o político, “o uso indisciplinado da tecnologia pode ser prejudicial ao homem”. No Mato Grosso do Sul, o projeto foi da autora Celina Jallad[5], e, segundo a proposta parlamentar, o Poder Executivo estabelece as normas necessárias à fiscalização e aplicação das penalidades cabíveis, no caso de descumprimento da determinação. Na Bahia, o deputado Adolfo Menezes[6], através do projeto de Lei 16.819/2007, proíbe o uso de celular, jogos eletrônicos, aparelhos de MP3 e MP4 no horário de aula. Também no ano de 2007, os estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Goiás e Espírito Santo sancionaram projetos de leis que proíbem o uso do celular nas escolas.

Já no Ceará, a situação parece ser um pouco diferente do resto do país. O deputado Professor Theodoro (2011) elaborou o projeto que apoia o uso disciplinar em sala de aula para celulares e tablets. O político foi inspirado pelo projeto de rede pública de Fortaleza, Telinha na Escola, coordenado pela professora Terezinha de Souza[7]. A organizadora do projeto elenca as atividades que podem ser feitas via celular: vídeos de bolso, documentários, programas de áudio, Festival de microtextos, além de transferir conteúdos via Bluetooth.

Moraes (2008) comenta que a coerção sem folga, quase em um nível mecânico – movimentos, gestos, atitude, rapidez, vela os processos da atividade reflexiva e “esquadrinha” o tempo, o espaço e os movimentos. A partir dos séculos XVII e XVIII, essas formas de dominação ficaram claras, pois a utilidade do corpo é definida como anatomia política ou mecânica do poder e tem na disciplina o aumento das forças do corpo.

A vigilância sobre o uso do celular em aula não ocorre todo o instante, mas é sentida permanentemente. Para Moraes, “o indivíduo constantemente vigiado aprende a vigiar a si mesmo, internaliza as relações de poder, aprende a disciplinar seu corpo e sua forma de vida, tornando-se, assim, o seu próprio guardião” (MORAES, 2008, p. 62).

Ser pego usando um celular em sala de aula é visto como mau comportamento, e punições como suspensão, chegando à expulsão da escola, são atitudes hierarquizadas que classificam os comportamentos dos alunos em “bons” e “maus”. Negligenciando a potencialidade dos celulares como ferramenta educacional e sem políticas públicas capazes de atender à demanda de usuários em seus diversos contextos sociais, políticos, deputados e governadores de diversos estados do país, através de projetos de leis, sancionaram a proibição do uso do aparelho em sala de aula a partir do ano de 2007.

Buscar alternativas flexíveis no contexto da mobilidade no processo ensino-aprendizagem parece crucial no avanço da educação no país e na difusão científica do conhecimento, principalmente para crianças e jovens de classes populares, que têm neste objeto o único acesso à internet, “ao mundo”. Moraes (2008) compartilha da mesma preocupação sobre a atualização dos métodos de ensino, “dessa forma, a escola entra em conflito com o curtíssimo prazo contemporâneo e é forçada a rever suas posições” (p. 131).

O pesquisador Scott Campbell (2007) analisou o uso dos telefones celulares em sala de aula por estudantes de baixa renda de uma universidade de Londres e seu prejuízo em relação ao desvio de atenção. O estudo revela que, além da distração, o celular pode ser usado como ferramenta de auxílio em provas, transmissão de fotos e resultados de exames e de diversão como jogos online e música. Embora o autor reconheça que nem todas as práticas relacionadas ao aparelho são censuráveis, novas oportunidades educativas estão surgindo, como a educação à distância. Como resultado obtido na pesquisa “Perceptions of mobile phones in college classrooms: ringing, cheating, and classroom policies”, tanto os estudantes quanto os professores londrinos veem o uso da tecnologia em sala de aula negativamente, e são favoráveis a políticas públicas para a proibição em salas de aula.

Ismail (2011) desenvolveu junto ao Departamento de Tecnologias da Informação da UNICAMP métodos de interatividade entre aluno e professor através de SMS. Para a autora, a interatividade não é caracterizada apenas como experiência ou agenciamento do estudante, “mas como possibilidade de criação de uma obra aberta e dinâmica, em que os experimentos e novas situações de aprendizagem se reconstroem a cada lição, à medida que se utilizam signos na formação do conhecimento” (ISMAIL, 2011, p. 23). O projeto visa desenvolver a construção de novas formas pedagógicas de ensino.

Oliveira (2012) acredita que a crise no Ensino Médio brasileiro parte de elementos que capturam a atenção do jovem, como os hipertextos. Navegar na internet, no celular ou em casa, em vídeos, como na plataforma Youtube, disponibilizam a experiência dos prazeres da audição e da visão. Os recursos audiovisuais proporcionam para os jovens do Ensino Médio uma imersão no ciberespaço, uma vez que “a atual predileção dos jovens pela virtualidade da internet, sugere que o longo tempo no qual esses sujeitos permanecem conectados pode estar atrelado a uma disposição comportamental para obtenção de prazeres sensoriais e, não somente, para estabelecer contatos interpessoais” (OLIVEIRA, 2012, p. 197).

Apresentaram-se algumas perspectivas do uso do celular e das novas tecnologias em sala de aula (OLIVEIRA, 2012; ISMAIL, 2011; CAMPBELL, 2007; MORAES, 2008). O campo ainda é fértil para discussão, pois o objeto de estudo tem quatro décadas de história, sendo capaz de transformar o espaço educacional, forçando, muitas vezes, os educadores a reverem suas maneiras de ensino, tendo o aluno o papel de receptor de novas aprendizagens. Ainda é cedo para julgar, definir, liberar ou condenar o uso do celular em sala de aula. De uma coisa sabemos, o celular é um artefato indispensável na vida de qualquer estudante e um objeto presente nas salas de aula, não só do Brasil, mas do mundo. Não havendo controle sobre a entrada dos aparelhos na escola, a estratégia dos professores atualmente é solicitar o desligamento dos aparelhos durante a aula, mas isto nem sempre acontece.

Considerações Finais

Muito influenciado por Nietzsche, Foucault vai desenvolver uma teoria da verdade que a toma como uma construção histórica. Para ambos, nós não temos uma verdade universal. Considerado um dos filósofos mais influentes da modernidade, Foucault estabeleceu relações de reflexões entre o homem, o saber e o poder ajudando a entender o papel das instituições sociais (como a escola) renovando a psicologia como ciência.  Ao apresentar dois momentos distintos em que articulei as teorias discutidas em sala de aula com meu objeto de estudo, vislumbrei demonstrar a atualidade do pensamento foucaultiano para reflexões do corpo atrelado ao self bem como o controle e vigilância de alunos do ensino médio portadores de smartphones em sala de aula.

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[1] Estatísticas celulares no Brasil. Disponível em < http://www.teleco.com.br/ncel.asp>

[2] GoTinder. Disponível em < https://www.gotinder.com/>.

[3] Orlando Morando parabeniza professores. Disponível em <http://www.orlandomorando.com.br/?noticia=253> 

[4] ALPB derruba veto e proíbe celular em escolas, disponível em <http://www.al.pb.gov.br/3263> 

[5] Projeto de Lei proíbe uso de celulares em sala de aula. Disponível em <http://www.al.ms.gov.br/Default.aspx?tabid=185&ItemId=22581> 

[6] Com projetos inconstitucionais, Assembleia Legislativa vira máquina de projetoides. Disponível em <http://www.metro1.com.br/com-projetos-inconstitucionais-assembleia-legislativa-vira-maquina-de-projetoides-10-37632,noticia.html> 

[7] Tecnologia na sala de aula. Disponível em < http://professorteodoro.com.br/tecnologia-na-sala-de-aula-2/>