O feminismo de “Segunda Onda” (Joana Maria Pedro)

O feminismo de “Segunda Onda” (Joana Maria Pedro)

a) A ONDA QUE ATINGIU O BRASIL: Até os anos 80, no senso comum, o feminismo era associado à luta de mulheres masculinizadas, feias, lésbicas, mal-amadas, ressentidas e anti-homens. A partir de 1960 o país viu surgir o feminismo “Segunda Onda”, um movimento que apresentou reivindicações para além dos direitos políticos, econômicos e educacionais junto com o combate às depreciações que tinham como alvo ativistas e simpatizantes. Fortemente inspirado nos movimentos feministas de “Segunda Onda” do exterior, no Brasil a questão do trabalho e os problemas da mulher trabalhadora tiveram inicialmente prioridade sobre tantas outras pautas. Em pouco tempo, as demais reivindicações ganhariam força, com assuntos ligados a sexualidade e corpo e à violência contra a mulher. 

b) VISIBILIDADE DAS MULHERES: O processo acelerado de urbanização, a partir de 1970, fez das mulheres personagens visíveis em diversos espaços públicos. A presença feminina aumentou nas universidades e nos empregos formais – os rostos femininos também eram nítidos nas manifestações de rua.

            Portanto, no Brasil, o feminismo de “Segunda Onda” foi contemporâneo de muitos outros movimentos que contavam com expressiva participação das mulheres. É o movimento feminista que também afirma que as relações entre homens e mulheres não são inscritas na natureza e, portanto, passíveis de transformação.

c) GRUPOS DE CONSCIÊNCIA OU REFLEXÃO: No Brasil, como em outros países, o feminismo de “Segunda Onda” adotou uma metodologia revolucionária de divulgação das ideias: os grupos de consciência ou reflexão. Os grupos eram apenas mulheres e se reuniam nas casas uma das outras ou em lugares públicos para discutir problemas específicos das mulheres. Quando o grupo ultrapassasse 24 pessoas, seria dividido, formando novos grupos. A proposta era forjar uma rede, espalhando esses grupos por diversos lugares.

            Um dos primeiros grupos nasceu em SP em 1972 e era formado por mulheres intelectualizadas que tinham entre 30 e 38 anos de idade. No RJ também foi criado no mesmo ano. Em viagens aos EUA e Europa, essas mulheres trouxeram na bagagem livros que discutiam o feminismo e propunham mudanças que começariam por meio da formação desses grupos.

            Assuntos como o orgasmo era tema de debate, a facilidade de obter informações que se tem hoje em dia sobre o corpo e o prazer sexual não existia em meados de 1960 e início dos anos 1970. Foi para enfrentar a ignorância e o preconceito sexual que mulheres americanas de classe média se reuniram formando grupos de consciência/reflexão em que discutiam sobre corpo e sexualidade. Seu exemplo inspirou mulheres do mundo todo.

PÍLULA => desde o início da década de 1960 entrava no mercado a pílula anticoncepcional. A existência desse método contraceptivo ajudou a consolidar na mentalidade das pessoas a separação entre procriação e sexualidade. Com a existência da pílula, o prazer das mulheres nas relações sexuais tornou-se uma questão muito mais importante. Além disso, a pílula permitiu às mulheres planejarem com mais segurança quando e quantos filhos queriam ter, levando em consideração o estilo de vida, carreira profissional e questões financeiras.

LINHA DA VIDA => nos debates do grupo de consciência/reflexão as participantes adoravam uma metodologia chamada “linha da vida” que as levava a falar sobre suas experiências e vivencias pessoais. Conversavam como viam seu próprio corpo e o dos homens, contavam sobre a experiência da menstruação ou do aborto, narravam situações de preconceitos por ser mulher na família ou no trabalho. Por negarem a existência de líderes ou porta-vozes e rejeitarem hierarquias, as participantes preferiam que as reuniões tomassem um rumo não determinado ou fossem dirigidas. Todas deveriam ter direito à palavra. Por essa razão, as militantes sentiram a necessidade de criar “alas femininas” em vários desses movimentos. Elas passaram a se reunir em separado, formando “grupos de consciência” no interior dos movimentos sociais garantindo assim que a fala de cada uma fosse respeitada. Para as feministas a questão do direito das mulheres era fundamental.

d) FORMANDO REDES: Um dos objetivos dos grupos de consciência/reflexão das mulheres era aumentar a solidariedade entre elas e melhorar a autoestima. Fazer o uso da palavra e expor suas queixas levavam as pessoas a compreender que os problemas vividos individualmente consistiam em uma questão coletiva. É possível acompanhar esses grupos de reflexão/consciência em diversos lugares do Brasil, que se comunicavam como uma rede.

            Em Florianópolis, 1980, formaram-se Amálgama e Vivências. Costumavam fazer suas reuniões em círculos; daí a preferência por nomearem seus grupos com palavras como “coletivo” ou “círculo”.

PUBLICAÇÕES => Os títulos dessas publicações, em geral, traziam um sentido plural da palavra “mulher”, por exemplo: Nós Mulheres e Mulherio. Fora do Brasil havia publicações femininas intituladas Nosotras (Chile e México) e Nos/Otras (Espanha). Assim, formava-se uma grande rede, uma “coletividade internacional”. Como se pode ver, as redes brasileiras que estavam se constituindo e se consolidando nesse período tinham ligações de vários outros países.

e) A CRIAÇÃO DE CENTROS DA MULHER: Foi Mariska Ribeiro, quem conseguiu patrocínio da ONU para realizar o encontro em 1975, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, que seria considerado o marco fundador de “Segunda Onda” no Brasil. O encontro levou a decisão de se criar o Centro da Mulher Brasileira (CMB), no Rio de Janeiro. No mesmo ano, em outubro de 1975, em SP, ocorreu na Câmara Municipal de SP o Encontro para o Diagnóstico da Mulher Paulista, desse encontro nasceu o Centro de Desenvolvimento da Mulher Brasileira (CDMB) com o objetivo de ser um centro de sede física e estatutos, de estudos e reflexão para o desenvolvimento de uma “consciência nacional da condição da mulher”.

f) O SURGIMENTO DOS PERIÓDICOS:

09 de Outubro de 1975: publicação número 0 do jornal Brasil Mulher. Impresso em Londrina no Paraná era ligado ao CDMB de São Paulo. Com edições irregulares, manteve-se em circulação até 1980.

Junho de 1976: o Nós Mulheres surgiu em São Paulo e circulou até 1978.

            O jornal Brasil Mulher incorporou temáticas específicas do feminismo. O Nós Mulheres comprometeu-se com a luta da democracia e discutiu a questão das classes sociais.

            Na década de 80 inúmeros periódicos foram lançados, mas com vida curta, com exceção de Mulherio, que circulou até 1987. 

g) CONVIVENDO COM AS CRÍTICAS => Além das críticas formadas pelas próprias colegas feministas, as mulheres envolvidas em grupos de reflexão enfrentavam o forte preconceito então existente na sociedade brasileira contra o feminismo. A ausência de referências explícitas ao feminismo nos títulos é significativa. De fato, o antifeminismo era muito forte na sociedade brasileira dos anos 19870 e 1980.

            Não foram poucas as vezes que feministas se viram constrangidas a afirmar que não eram “contra homens”. Muitas ativistas também achavam importante deixar claro que não eram lésbicas. Embora a identificação com o feminismo estivesse expressa em palavras, os títulos referiam-se à mulher ou às mulheres, e não o feminismo.

h) GRUPOS NO EXÍLIO => Devido à ditadura militar, várias mulheres que se opunham às diretrizes do regime tiveram que sair do país. No exílio, participaram de grupos de consciência feministas. Para elas, a “tomada de consciência” a partir da troca de experiências resultava na valorização das mulheres e na identificação coletiva, que criava um sentimento de “irmandade”.

(Chile, Portugal e França)

i) O TRABALHO DOMÉSTICO EM QUESTÃO => Direitos ligados ao corpo e à sexualidade, liberdade de expressão, participação no mercado de trabalho e educação igualitária não eram as únicas bandeiras do feminismo de “Segunda Onda”. O trabalho doméstico historicamente visto como um encargo feminista também passa a ser questionado. As feministas queriam que os homens dividissem as tarefas domésticas e que o Estado fizesse a sua parte construindo creches para as crianças enquanto estes trabalhavam. A “dupla jornada” continua, pois, sendo um grande peso para as brasileiras.

j) FMEINISMO À BRASILEIRA => Durante a década de 1970 e grande parte de 1980, o embate ideológico das atividades ficou centralizado entre as “lutas gerais” e as “lutas específicas” das mulheres. Mesmo assim, as feministas eram constantemente criticadas por organizações e militantes de esquerda. Os partidos políticos que estavam na clandestinidade, por exemplo, estranharam a emergência do novo feminismo. Achavam “um absurdo” que os grupos feministas pudessem atuar como um movimento autônomo.

            Por outro lado, a presença das mulheres em grupos de esquerda chegou a configurar como uma “dupla militância”, já que elas levavam para estes grupos ideias extraídas do movimento feminista. Foi nesse contexto que conduziu à incorporação da questão de classe social à pauta do feminismo brasileiro, que passou dar especial atenção à mulher trabalhadora.

As feministas lutavam pela participação das mulheres em sindicatos, pelos direitos das empregadas domésticas, pela saúde e segurança das mulheres no trabalho e contra o assédio sexual de chefes e colegas.