Nikolas Rose – Como fazer a história do self?

Nikolas Rose – Como fazer a história do self?

Um resumo da obra do sociólogo britânico

O autor descarta o individualismo e a individualidade como eventos-chave em uma transição para a modernidade, mas no qual nosso presente se mostra como momento de uma similar transformação histórica “pivô” da subjetividade. Rose propõe uma abordagem que ele chama de “genealogia da subjetivação”, uma genealogia do nosso regime moderno do self, nossas “relações com nós mesmos”, que toma o entendimento interiorizado, totalizado e psicologizado daquilo que é ser humano como o campo de um problema histórico. Ele sugere uma abordagem de análise desta relação com nós mesmos que foca nas práticas das quais os seres humanos têm sido referidos e localizados. Toda análise procede de uma série de caminhos interligados: problematizações, tecnologias, autoridades, teleologias e estratégias. O autor sustenta que os regimes de subjetivação são heterogêneos e que essa heterogeneidade é significativa em relação a seus modos de funcionamento. A heterogeneidade e a prática embutida nos regimes de subjetivação nos permitem explicar a onipresença do conflito, da ação e da resistência sem pressupor qualquer subjetividade ou desejo especial. Também faz algumas sugestões de como a genealogia da subjetivação pode conceitualizar o material humano sobre o qual a história escreve, sugerindo alguns elementos de uma concepção mínima, fraca ou diluída do ser humano.

GENEALOGIA DA SUBJETIVAÇÃO -> escrever tal genealogia é procurar outros caminhos que não aqueles nos quais o self funciona como um ideal regulatório em tantos aspectos da nossa forma regulatória de vida. É uma espécie irreal de projeção.

  • Dimensões da nossa relação com nós mesmos: uma genealogia da subjetivação é uma genealogia daquilo que podemos chamar, de acordo com Foucault, de “nossa relação com nós mesmos”. O campo de atenção com que os humanos têm direcionado  a si mesmos e os outros em diferentes lugares, espaços e épocas. Colocando de forma grandiosa, pode-se dizer que é uma genealogia da relação consigo mesmo e das formas técnicas que se tem assumido. O foco é as relações que os seres humanos tem estabelecido com eles mesmos – aquelas nas quais vieram se relacionar consigo como selfs. Análises recentes entendem as formas cambiantes da subjetividade ou identidade como consequência de transformações sociais e culturais mais amplas – como a modernidade, modernidade tardia ou a sociedade de risco.
  • Tecnologias: a nossa própria experiência de nós mesmos como certo tipo de pessoas – criaturas livres, autorrealizadoras, dotadas de poderes pessoais – é o resultado de uma série de tecnologias humanas, tecnologias que tomam por objeto as maneiras de ser humano. Tecnologias humanas são agregados híbridos de saberes, instrumentos, pessoas, sistemas de julgamento, etc. sustentados no nível programático por certos pressupostos e objetivos concernentes aos seres humanos.
  • O governo dos outros e o governo de si: as tecnologias do self assume a forma de uma elaboração de técnicas para condução da relação de cada um consigo mesmo, por exemplo, ao exigir que cada um se relacione consigo de maneira epistemológica (conheça a si mesmo), despótica (controle a si mesmo), ou de outras maneiras (cuide a si mesmo). Elas são incorporadas de práticas técnicas específicas (confissão, diário, grupos de discussão, apoio, etc.). E são sempre praticadas sob autoridade, real ou imaginária, seja ele teológico ou pastoral, psicológico ou terapêutico, ou disciplinar e tutelar. O self não constitui um objeto trans-histórico das técnicas de se tornar humano, mas apenas uma maneira pela qual os humanos têm sido levados a entender a si mesmos e se relacionar consigo mesmo.
  • Dobras: No interior de uma genealogia da subjetivação, aquilo que é dobrado é qualquer coisa que pode adquirir autoridade: conselhos, técnicas, emoções, pequenos hábitos de pensamento e emoção, uma gama de rotinas e normas de como ser humano.

Administrando indivíduos empreendedores

E quanto aos nossos regimes de subjetividade: como eles estão relacionados às atuais mutações no campo do governo? Neste capítulo, o autor considera os caminhos pelos quais a atual proeminência de preocupações a respeito do self está ligada à emergência de uma série de programas políticos e de técnicas que buscam governar de novas maneiras, não através da “sociedade”, mas através de escolhas instruídas e informadas de cidadãos, famílias e comunidades “ativos”. Esses modos de governo concedem novos poderes e papéis para as autoridades e experts, e governam o exercício da autoridade expert de novas maneiras. Eles buscam operar de acordo com novas formas de entender a nós mesmos, aos quais subjetivam em termos de projetos de autopromoção dos indivíduos e suas famílias, e instrumentalizam os desejos de maximização das formas cotidianas de existência em termos de estilo e qualidade de vida. A valorização ética de certas características da pessoa – autonomia, liberdade, escolha, autenticidade, empreendimento – precisa ser entendida em termos de novas racionalidades de governo e novas tecnologias para a condução da conduta. Nesse sentido, uma história crítica da Psicologia está ligada não somente a uma analítica de nosso regime do self, mas também às questões éticas dos custos e benefícios das nossas relações atuais com nós mesmos e às estratégias que podemos inventar para governar os outros e governar a nós mesmos de outras maneiras.

Noções sobre a subjetividade variam amplamente de cultura para cultura, e existem muitas formas de explicar tais variações, relacionando concepções sobre a subjetividade tanto práticas religiosas, legais, penais ou outras tantas que afetam as pessoas, quanto com estruturas mais amplas em nível social, político e econômico.

Seguindo Foucault, sugeri que usássemos o termo “governo” como uma noção polimórfica para abranger as múltiplas estratégias, táticas, cálculos e reflexões que buscaram conduzir a conduta dos seres humanos. Nós podemos explorar essas relações através de três dimensões.

1) Governamentalidade: o complexo de noções, cálculos, estratégias e táticas atravpes das quais diversas autoridades procuram agir sobre a vida e condutas de cada um e de todos de forma a evitar os males e atingir estágios desejáveis como saúde, felicidade, riqueza e tranquilidade.

2) Institucional: conceber as instituições como uma forma tecnológica particular, isto é, como “tecnologias humanas”. As instituições podem ser vistas como tecnológicas na medida que buscam uma orquestração calculada das atividades dos seres humanos sob uma racionalidade prática dirigida a certos objetivos. Eles tentam simultaneamente maximizar certas capacidades dos indivíduos e restringir outras de acordo com determinados conhecimentos.  

3) Ético: a terceira dimensão de investigação do self moderno corresponde a um campo dito “ético”, na medida em que entendemos ética de forma “prática”, ou seja, como modos de avaliação e atuação sobre si mesmo que foram obtidos em diferentes períodos históricos.

  • Tecnologias do self: indivíduos contemporâneos são incitados a viver como se fossem projetos: eles devem trabalhar seu mundo emocional, seus arranjos domésticos e conjugais, suas relações com o emprego e suas técnicas de prazer sexual; devem desenvolver um “estilo” de vida que maximizará o valor de suas existências para eles mesmos. Torne-se inteiro, torne-se o que você quiser, torne-se você mesmo: o individuo deve tornar-se, por assim dizer, um empresário dele mesmo, procurando maximizar seus próprios poderes, sua própria felicidade, sua própria qualidade de vida, embora aprimorando essa autonomia e, assim, instrumentalizando suas escolhas autônomas a serviço do seu estilo de vida. O self deve moldar sua vida através de atos de escolha, e quando não conseguir conduzir sua vida de acordo com essa norma de escolha, deve procurar ajuda especializada. A terapia pode, portanto, propor libertar cada um de nós de nossas correntes psíquicas. Nós podemos ser empreendedores, assumir o controle de nossas carreiras, nos transformar em indivíduos bem-sucedidos, atingir a excelência e nos satisfazer, não apesar do trabalho, mas através do trabalho. 
  • As pressuposições do self: os trabalhadores não são mais imaginados meramente como tendo que suportar as degradações e privações de uma tarefa para receber um salário. Também não são vistos como criaturas sociais procurando satisfação de necessidades de solidariedade e proteção nas relações de grupo do local do trabalho. Ao invés disso, a imagem predominante do trabalhador é a do indivíduo em busca de sentido e satisfação, e o trabalho em si  é interpretado como um local onde cada indivíduo representa, constrói e confirma sua identidade, uma parte intrínseca de um estilo de vida. O mundo od trabalho é reconceitualizado como um âmbito no qual a produtividade deve ser aprimorada, a qualidade assegurada e a inovação promovida através da participação ativa dos impulsos de autossatisfação do empregado, através do alinhamento dos objetivos da organização com os desejos do self.

Agenciando nossos selfs

No capítulo final, retorna à questão da própria “subjetividade” e de como ela pode ser pensada de maneira diferente, perturbada e desestabilizada. Como nos capítulos anteriores, os discursos que têm se ocupado da pessoa humana são mais do que “representações” da realidade subjetiva ou crenças culturais. Eles têm constituído um corpo de reflexões críticas sobre os problemas ligados ao governo de pessoas de acordo com, por um lado, sua natureza e verdade e, por outro, as demandas da ordem social, da harmonia, da tranquilidade e do bem-estar.  Eles têm estabelecido um conjunto de normas de acordo com as quais as capacidades e a conduta do self têm sido julgadas. Mas eles também têm constituído regimes mutáveis de significação, pelos quais as pessoas podem dar sentido a si mesmas e a suas vidas, e se manifestam em técnicas para modelar e reformar selfs. Embora muitos tenham anunciado a “morte do sujeito” e proposto os modelos alternativos de subjetividade, ninguém foi tão provocativos em suas propostas quanto Gilles Deleuze e Félix Guattari. Neste capítulo, depois de discutir algumas considerações sobre a construção linguística ou narrativa da subjetividade, proponho uma visão da subjetivação em termos de um arranjo de “obras” de exterioridade, elas mesmas agenciadas e maquinadas em aparatos particulares. O saber psi, sugiro, tem desempenhado papel central nas dobras pelas quais nós, hoje, viemos a nos relacionar com nós mesmos. E uma análise dessas “dobras” psicológicas de certa forma nos ajuda a entender como, enquanto habitantes desta zona espaçotemporeal particular, nós temos sido levantados a reconhecer a nós mesmos como sujeitos de “liberdade”.

Na vida política, no trabalho, em arranjos conjugais e domésticos, no consumo, no marketing e na propaganda, na televisão e no cinema, no complexo legal e nas práticas da polícia e nos aparatos da medicina e da saúde, seres humanos são abordados, representados e sofrem ações como se fossem selfs de um tipo particular, mesclados com uma subjetividade individualizada, motivados por ansiedades e aspirações relacionadas à sua autorrealização, comprometidos a encontrar suas verdadeiras identidades e maximizar suas expressões autênticas em seus estilos de vida.

Você é uma longitude e uma latitude, um conjunto de velocidade e lentidões entre partículas não formadas, uma série de afetos não subjetivados. Você tem a individualidade de um dia, de uma estação, de um ano, de uma vida – um clima, um vento, uma neblina.

  • Narrando um self: uma vez tecnicizadas, maquinadas e localizadas em lugares e práticas, uma imagem diferente da “construção de pessoas” emerge. As pessoas, aqui, funcionam de uma forma heterogênea inescapável, como arranjos cujas capacidades são definidas e transformadas por meio de conexões e ligações nas quais elas são apreendidas em espaços e lugares particulares. Não é, portanto, uma questão de analisar uma narrativa do self, mas, ao contrário, de examinar o agenciamento dos sujeitos: de sujeitos em combate nas máquinas de guerra, de sujeitos trabalhadores nas máquinas de trabalho, de sujeitos desejantes nas máquinas da paixão, de sujeitos responsáveis em diversas máquinas de moralidade. Em cada caso, a subjetivação em questão é um produto, não da psique ou da linguagem, mas de um agenciamento heterogêneo de corpos, vocabulários, julgamentos, técnicas, inscrições e práticas.
  • Anatomias imaginárias: a corporalidade humana, como se sugere, pode prover a base de uma explicação de subjetivação, para a constituição de desejos, sexualidades e diferenças sexuais, dos fenômenos de resistência e agência. O aspecto do ser humano que é cercado e dobrado em tantos agenciamentos de subjetivação contemporânea não é nem o corpo/prazer nem carne/desejo, mas self/realização. Esse ser psicológico está agora colcoado na origem de todas as atividades de amar, desejar, falar, trabalhar, adoecer e morrer: a interioridade, que tem sido dada aos humanos por todos esses projetos que buscam conhecê-los e agir sobre eles visando contar-lhes sobre a verdade e tornar possível seu aperfeiçoamento e sua felicidade.