Medicina espacial e a questão de gênero

Medicina espacial e a questão de gênero

Sabemos que não somos iguais, mas essas diferenças fisiológicas são importantes quando mudamos drasticamente de ambiente? Para saber a resposta dessa e de outras perguntas precisamos analisar os dados que já temos, tratando dos sistemas muscular-esquelético, imunológico, neurossensorial, reprodutivo e comportamental dos astronautas. Sabemos bem que há bastante diferença entre homem e mulher, os homens geralmente possuem maior força e massa muscular

(NASA, 2014 – tradução minha).

Os astronautas podem experimentar experiências fisiológicas e mudanças psicológicas durante missões espaciais de longa duração que pode interferir no desempenho da tripulação e conclusão de uma missão. Pela avaliação do comportamento de “homens saudáveis” (SMITH; HEER, 2014) foram avaliados os efeitos do desempenho cognitivo, emocional e motor a fim de analisar o impacto que esses fatores podem ter sobre comportamento, desta forma, “o sexo é “recuperado” para ser reapresentado como gênero, que “nós” podemos controlar. Parece impossível evitar a cilada da lógica de dominação, inscrita no par binário natureza/cultura e na linhagem que ela gerou, incluindo a distinção sexo/gênero” (HARAWAY, 1995, p. 36). As tecnologias observáveis em laboratórios serviram como uma maneira de explorar fatores e mecanismos subjacentes responsáveis pelo comportamento de distúrbios observados durante os voos espaciais e para buscar estratégias para neutralizar supostos efeitos negativos. Isso pode parecer agradável e relaxante no começo, mas ficar deitado praticamente sem fazer nada durante todo o dia enfraquece os músculos e, com o tempo, eles se perdem. É um problema para aqueles que vivem na Estação Espacial Internacional, e para qualquer outra pessoa que espera flutuar entre as estrelas por períodos prolongados de tempo. Como as agências espaciais têm a perspectiva de enviar pessoas para a Lua ou para Marte, a atrofia muscular está na lista de suas principais preocupações. No momento, os astronautas da NASA são obrigados a se exercitar todos os dias por duas horas. Eles têm que correr, pedalar e levantar pesos. Mas eles também devem considerar a injeção de testosterona, assim como os astronautas chineses e europeus. Estes estudos de voo espacial foram conduzidos pelas três agências, os estudos de repouso no leito foram realizados em centros de pesquisa clínica em ambos os continentes. Todos os participantes eram do sexo masculino e incluíam 15 tripulantes de missão de longa duração e nove de curta duração e 30 sujeitos de repouso na cama.

Para este último experimento, os homens foram divididos em três grupos. Um grupo foi injetado testosterona e teve que se exercitar, o segundo grupo recebeu placebos e também teve que se exercitar, enquanto o terceiro grupo foi alimentado com placebos e não teve que se exercitar. Os pesquisadores da NASA também cortaram um pouco de músculo da perna de cada participante antes, durante e depois dos experimentos para analisar. É possível que os astronautas podem, em breve, ter seus próprios programas pessoais de tratamentos hormonais e rotinas de exercícios que são adaptados a seus próprios corpos para minimizar a atrofia muscular no futuro, “quanto ao resto de nós, há uma relação muito frouxa entre o que os cientistas acreditam ou dizem acreditar e o que eles realmente fazem” (HARAWAY, 1995, p. 09).

O que os cientistas estão fazendo diz respeito a todos os seres humanos, e este debate deve, é claro, ser acompanhado pelos cientistas na medida em que são concidadãos. Mas todas as respostas dadas neste debate sobre o uso de testosterona em astronautas, seja de leigos ou cientistas, eles nunca podem ser comprovadamente verdadeiros ou falsos. Mas, como tal verdade nunca comanda um acordo geral, tratamos aqui de localizar saberes e subjetividades válidas também para todos os homens e mulheres, ou seja, noções de vida, de ciência ou conhecimento são pré-científicos por definição. As categorias de medicalização em que os astronautas são submetidos pela medicina espacial têm em sua finalidade última na experiência sensorial humana, e todos os termos que descrevem habilidades mentais e corporais, bem como uma boa parte de nossa linguagem, sendo assim, poderíamos dizer que o conhecimento produzido é derivado do mundo dos sentidos e é usado metaforicamente para reafirmar o lugar de poder das masculinidades.