JULIAN ASSANGE – O segredo do homem que guardava segredos

JULIAN ASSANGE – O segredo do homem que guardava segredos

Nas múltiplas configurações interconectadas de um século XXI globalizado e midiatizado, buscamos entender como os segredos são feitos, mantidos e quebrados e como eles continuam sendo vitalmente importantes não só para a antropologia, mas para as humanidades e seus públicos a partir do caso de Julian Assange e do Wikileaks.

Em uma época não muito distante, grandes segredos viajavam escritos em cartas, códigos eram escondidos em mapas, havia aquela pista que levava à outra pista, os envelopes eram quase sempre lacrados com selos especiais e raros. Nestes documentos altamente secretos estavam descritos futuros de nações, desejos de reis e rainhas, datas de início e término de guerras ou simplesmente uma troca de confidências entre nobres e poderosos, estes, ainda viviam em um mundo off-line. No final do século XX, houve a proliferação da internet, dos computadores e das redes on-line, tudo estava se interligando: dados, fontes, documentos sendo digitalizados – a comunicação em massa sofria uma reviravolta e tentava se adequar as novas demandas da conectividade global (Castells, 2011). Passada esta primeira fase de implementação das redes mundiais de computadores, é no início do século XXI que temos um boom de aparelhos móveis (notebooks, tablets, smartphones, devices, etc.) e de navegações alternativas na web, como a deep web, a descentralização dos blockchains, códigos abertos, entre outras formas de apropriação da internet, etc. São nestes contextos de aceleração da comunicação, de tráfego de dados secretos, de digitalização de segredos e criptografia digital que a ‘militarização do ciberespaço’ aconteceu, em algum momento nestes tempos de conexão global, uma guerra invisível se iniciou, uma guerra que diz respeito ao controle e vigilância de Estados e cidadãos, uma vigilância sobre quem nós somos, o que temos e o que desejamos obter. Não existe mais espaço selvagem na Terra, tudo está mapeado por satélites, ou seja, é como o título do livro do jornalista Glenn Greenwald (2014) “Sem lugar para se esconder”. Temos a ilusão que hoje ainda poderíamos viver uma vida repleta de privacidade e isolamento, quando na realidade nosso planeta já foi hackeado, assim como nossos governos e governantes –  não há nuvem para todos os sigilos sem haver uma grande tempestade.

Em 2010, o jornalista australiano Julian Assange ainda era desconhecido em grande parte do mundo, mas era um dos pioneiros a utilizar tecnologias digitais para desafiar os Estados autoritários e corruptos, ele desenvolvia na época uma plataforma em que pudéssemos enviar arquivos confidenciais sem sermos identificados ou sofrermos ataques legais ou tecnológicos. Em parceria com o The Guardian, uma enxurrada de segredos (políticos, militares, diplomáticos) foram revelados, Assange se tornaria viral, e o Wikileaks uma arma letal que denunciava verdades escondidas da população mundial. Em 2019, Julian Assange foi preso na Embaixada do Equador, em Londres, provocando uma crise na liberdade de imprensa, na relação com as fontes e, sobretudo, trazendo para o debate a criminalização do jornalismo. Não é novidade para ninguém que os governos negociam informações a todo momento. Desde 2012 na Embaixada do Equador, no Reino Unido, sob asilo político e alegando injustiças em sua prisão, a jornada de Assange sobre a liberdade de informação, e de muitos outros ativistas e movimentos, mostra que há uma guerra virtual escondida e secreta aos nossos olhos. Aqui, os EUA grampearam a Dilma, ex-ministros e o avião presidencial. São por informações como esta que Assange é julgado por todos os lados que o confrontam, desde especialistas em TI, hackers, jornalistas, ativistas para software livre, políticos, policiais, mídia, etc. A vida de Assange é uma prisão solitária e todos tem uma palavra sobre ele.

Em 1993, Eric Hughes escreveu um livro chamado “Manifesto Cypherpunk”, foi assim que a resistência para uma internet livre iniciou, foram físicos, matemáticos, engenheiros, pesquisadores de distintas áreas que se encontravam para debater o futuro e o impacto cultural que a internet proporcionaria. No Wikileaks a ideia é manter um canal totalmente seguro para o envio de documentos com uma criptografia inviolável a ataques erradicando qualquer possibilidade de rastreamento da origem do documento, o próprio Assange (2013) diz que não sabe as identidades dos materiais que vazam no Wikileaks, pois a ideia sempre foi manter o princípio cypherpunk, de que a informação quer ser livre e o compartilhamento deve ser seguro. A equipe do Wikileaks é composta por menos de 10 pessoas, mas calcula-se que tenha entre 2 a 3 mil voluntários entre ativistas, intelectuais, jornalistas, militares e informantes por todo o mundo.

Julian Assange é uma das pessoas centrais na guerra de informações e segredos em que vivemos. Assange começou sua vida como hacker, sob o nick de Mendax, em 1991 a polícia invadia sua casa em Melbourne, mas foi solto sob fiança e bom comportamento. Foi depois deste episódio que ele foi estudar física e matemática e ali iniciou seus estudos sobre internet e seus efeitos e também seu ativismo pela liberdade de informação. Em 2006 ele fundou o Wikileaks, um projeto de transparência e segurança para expor documentos de governos corruptos. Assange desenvolveu uma plataforma original, uma espécie de Dropbox para o envio de material de forma segura, essa habilidade de Assange já havia sido desenvolvida tempos antes para criações de criptografia para defensores de direitos humanos, e que mesmo sob ameaça de regimes autoritários conseguiu fazer divulgações necessárias. Ao longo destes anos, o Wikileaks divulgou muito material sobre o autoritarismo e vigilância dos governos. Em 2010, 91 mil documentos foram vazados sobre a guerra do Afeganistão e as transgressões do governo americano, gerando uma crise no governo Obama.

Depois que Rafael Correa concedeu asilo a Assange, o atual presidente Lenín Moreno, assumiu uma outra linha política e rompeu com Correa, passando a aplicar regras cada vez mais tensas a Assange, assim, as relações entre os dois sempre foram conturbadas. Quando o Wikileaks lançou o INA Papers, revelou supostas redes de corrupção no Equador, e a família Moreno foi acusada de receber 18 milhões de dólares em propina de uma empreiteira chinesa. Logo, a proteção e o anonimato de fontes, foram revogados pelo presidente do Equador.

Conforme relatos divulgados pelo Wikileaks, Assange foi vítima de uma rede de operações na embaixada do Equador, em Londres, onde esteve refugiado desde 2012, e nos últimos anos tinha suas ações gravadas em segredo, o material estaria à venda no mercado negro por 3 milhões de euros. O prédio estava sob uma “extensa” operação de espionagem. Quando Lenín Moreno assumiu o poder, as visitas e o acesso as comunicações de Assange foram restringidas, e ele raramente via a luz solar.

Na antropologia, o sigilo e os segredos são temas de longa data. O conhecimento que produzimos baseia-se em nossa capacidade de elucidar informação: extrair sistemas de conhecimento especializado; para revelar os códigos secretos de linguagem e comunicação dentro de mundos cotidianos e sobrenaturais; para tornar visível o tácito, inerente e indescritível; para desfazer os segredos do passado. Nós barganhamos segredos da psique, sociedade, religião, economia, sistemas políticos, artefatos culturais e materiais. Fazendo isso, enfrentamos continuamente dilemas sobre o que dizer e o que manter em segredo, do grau em que nossos métodos devem envolver sigilo e os predicamentos éticos dessas questões, é neste contexto que o Wikileaks preserva certas pessoas de certos contextos, ao manter o anonimato, embora tenham acesso a verdadeira identidade da fonte.

Como estes segredos do Wikileaks são feitos e produzidos, mantidos na gaveta ou publicados, ou ainda, porque eles são compartilhados torna-se uma questão tão importante hoje como era para antropólogos e outros pesquisadores sociais. Similarmente, a política e a ética de possuir e mostrar coisas que são secretas, honradas ou sagradas tornaram-se intensas, tanto para antropólogos e etnográficos ao interrogar a proveniência e exibição de suas narrativas e discursos “secretos”.

Neste século, as mídias sociais e as tecnologias de comunicação permitiram a transmissão de dados pessoais e administrativos de maneira que constroem vidas sociais e comunidades e sustentam a sociedade civil, ao mesmo tempo em que suscita ansiedades em torno do sigilo e privacidade, vigilância e direitos.  A ansiedade prevalece em torno da confidencialidade face ao medo do terrorismo e à luz das sofisticadas técnicas de espionagem política e comercial que expõem as desigualdades na ordem social global.  Preocupações convencionais de métodos antropológicos e representação fazem uma exploração teórica da noção de segredo particularmente relevante em uma época em que as tecnologias de todos tipos estão continuamente nos forçando a reavaliar o privado e o público (e o sigilo como algo que complica essa dicotomia) em termos de teoria e nas práticas cotidianas de pessoas ao redor do mundo.

Ao longo do artigo, buscamos explorar as maneiras críticas de pensar os segredos enquanto enfatizamos suas complexidades éticas, intelectuais e epistemológicas. Faremos conexões entre Julian Assange e os segredos revelados pelo Wikileaks, alertando os leitores, portanto, para as correntes contemporâneas de pensamento sobre o segredo em um mundo em rápida mudança. Começamos discutindo a vida do segredo na sociedade e em suas várias instituições. Posteriormente, destacaremos alguns aspectos da morte do segredo, quando ele morre, e por quais razões. Finalmente, examinamos os modos dessa morte e a política de sigilo, iluminando como os segredos podem ser revelados através de exposições na mídia neste século XXI globalizado e conectado.

Os segredos têm vida

No início do século XX, Georg Simmel (1906) sugeriu que, embora a governamentalidade possa ser interpretada como o poder de determinar quais segredos podem ser mantidos e por quem, e quem é obrigado a permanecer visível e quem não é, ocorre que inversamente, o sigilo era um meio pelo qual as pessoas poderiam resistir ao controle social. O segredo em suas formas contemporâneas torna-se um filtro nos modos atuais de conhecimento, identidade, pertencimento, resistência e poder. Nós exploramos o poder em modos de análise que podem ir além e se correlacionar também aos enquadramentos foucaultianos do panoptismo e da autovigilância, pois os segredos conferem poder aos seus guardiões e permitem o seu exercício sobre os outros.

Várias instituições e estruturas culturais – sistemas de parentesco, idade e gênero, sociedades secretas e guildas – sustentam a ideia de informação e conhecimento secreto, mesmo quando tais segredos são de conhecimento público. O segredo como convenções de sigilo e a ética de manter esta mudança com o tempo e lugar torna-se a base de uma implícita compreensão de propriedade e limites que é relativamente constante: uma ética comum compartilhada do que pode ser solicitado e contado, revelado e inspecionado. Nós enfrentamos uma dificuldade ontológica na teoria e na vida social em apreender o segredo, pois, por definição, um segredo é algo que vai além do que é mostrado e dito. Aqui partimos um pouco da definição do segredo como um ritual de acesso ao conhecimento valorizado; em vez disso, vemos segredos como coisas que pode ser visto, performaticamente, viver e morrer em suas narrativas, o valor do conhecimento secreto se torna aparente e ganha força social no momento da sua revelação, foi assim que ocorreu com o primeiro vazamento de informações do Wikileaks, onde uma onda global de informação circulou os segredos revelados, nesse momento os segredos tinham vida, circulação, distribuição e produção em escalas globais.

Como Lowry (1980) e Tefft (1980) sugeriram há mais de três décadas, os segredos são práticas comunicativas de dizer e também silêncio que regulam o acesso ao conhecimento investido com valor para indivíduos e coletivos, muitas vezes de formas que definem exclusão e identidade de sujeitos e fatos revelados que comunicam por si uma ausência presente. A partir dos segredos, as pessoas formam relacionamentos sociais e constroem identidades coletivas, como já sugerido no caso de Assange e o Wikileaks. Eles criam e mantêm identidades, negociam a vida intersubjetiva, regulam a interação social e enquadram práticas institucionais. No segredo há limites que variam em sua forma de exposição e exibição, depende do contexto cultural em que está inserido, pois é num ambiente e vida social que eles operam (Taussig, 1999) de forma autônoma e fluída. Desde a antiguidade até agora são famílias, lojas, comunidades fechadas, corporações e governos, departamentos de segurança que trabalham em torno de segredos e sua manutenção, incluindo, em alguns casos, decisões do judiciário e da legislação. Estas subjetividades, convenção, controle e produção de conhecimento são, portanto, implicados nas práticas e nas políticas de divulgação, exposição e exibição, também moldadas pelas circunstâncias históricas, tecnológicas e sociais. A interação do espaço e política mobilizam questões sobre a colocação da ação social nas arquiteturas do sigilo e práticas relacionadas de visibilidade.

A confissão dos segredos  

Segredos estão situados em relações sociais, instituições e tecnologias, linguagem, imagem, filme e mídias sociais e estruturas. São – ou podem ser – verdades que são objeto de intenções e ramificações relacional significativas. No entanto, nem tudo é conhecido ou conhecível e, portanto, mantido em segredo da mesma forma que nunca somos totalmente transparentes entre si (Butler, 2005); o segredo transmite mais que conhecimento. Eles são frequentemente instruídos a construir ou sustentar relacionamentos sociais. Nós estabelecemos a intimidade através da partilha secreta, confiando que tais segredos serão mantidos, enquanto convidamos um outro para uma revelação por sua vez (Mauss, 1954). Mas, compartilhando segredos e quebrando o silêncio, no entanto, essas categorias são enquadradas, também como um sigilo quebrado, sendo moldados e interpretados em diferentes contextos comunicativos: na fala cotidiana, nas trocas formais e retóricas, nos textos de diferentes tipos, e através do desempenho e exibição. O imperativo ou expectativas de contar desafiam as pessoas a refletir sobre como serão apresentadas em espaços semiprivados ou públicos, sobre os quais não têm controle, influenciando como as pessoas gerenciam as fronteiras privado/público ao manter a identidade pessoal, como no caso Snowden (Greenwald, 2014). Em domínios públicos, numa confissão, em um tribunal ou em um testemunho público, quebrar o silêncio pode servir de uma função restauradora, proporcionando maneiras de reparar os desequilíbrios do poder instaurado. Espaços públicos não são simplesmente os lugares de relatos de eventos e verdades particulares, contudo, eles moldam a natureza dos eventos, e muitas vezes segredam o conhecimento que é transformado à medida que é retirado de seu contexto de espaço público. Aqui está uma contradição que as pessoas rotineiramente negociam: o sigilo é uma forma vital de demarcar a exclusão privada/pública, ao mesmo tempo que constitui a esfera pública. Portanto, revelar segredos cria crises que permeiam os esforços de indivíduos e comunidades para fazer reclamações sobre seus poderes de auto definição em espaços públicos e em suas representações. Atos de contar e mostrar criam mudanças no relacionamento interpessoal e comunitário dos relacionamentos; contar não pode ser desfeito ou facilmente apagado (Jones, 2014).

Muitas vezes, o segredo está ligado à desonestidade e à repressão; guardar segredos é ruim para o indivíduo, para o corpo social e para o Estado. Essa compreensão está no coração da confissão e do poder de absolvição. Quebrar um silêncio é tipicamente baseado na presença de outro (um padre, um outro íntimo, um médico, um policial, juiz) e seu poder de intercessão (Cannell, 2006; Foucault, 1980). E com a compreensão do poder de contar é a ideia de libertação – contar é libertar-se do repressivo mantendo o segredo sobre si mesmo e os outros, daí o papel do contexto social e cultural, de testemunho, comissões de verdade e reconciliação, comissões de inquérito, desculpas públicas e assim por diante. Através de sua participação voluntária e do fornecimento de testemunho pessoal no espaço público para vários públicos, os participantes de uma comissão de verdade e reconciliação, por exemplo, divulgam segredos relativos à sua própria vida com a consequência de encontrar resolução ao mesmo tempo expondo delito dentro das instituições e/ou por outros indivíduos. A intenção é de fechamento; a verdade é assumida para resolver a dor individual, bem como atender a uma necessidade coletiva de reparo. Além disso, enquanto a igreja e médicos e as práticas de cura honram convencionalmente a confidencialidade e a privacidade da confissão, a transparência tem sido cada vez mais sustentada como uma prática valorizada em órgãos públicos. Assim, o conhecimento privado é inscrito e disseminado em arenas públicas para produzir novos entendimentos do assunto e efetuar mudanças políticas.

Já na psiquiatria e psicologia, a confissão é representada não como absolvente, mas como transformadora, como no exemplo da saúde pública, como vários programas de “doze passos”, tem frequentemente predicado a contar, com divulgações semipúblicas e confissões um pré-requisito para a participação em grupos de apoio e como evidência para outros a disposição de cumprir os objetivos do programa. Contar o segredo de alguém pode ser a base para aceitação social (Sørensen, 2015). Essas tecnologias confissão (de identidade e comportamentos particulares, incluindo aqueles que seriam considerados retrógrados) são diferentes em escala a partir dos confessionários públicos de regimes repressivos e das confissões de justiça transitória e restaurativa. Revelar os segredos dos indivíduos pode forçar as instituições de saúde a abordar certas dimensões vitais da vida que prefeririam se manter invisíveis, escondido e, portanto, secreto.  

Dizer e mostrar aos outros muitas vezes deslocou o discurso em torno do direito (e do valor) da privacidade e do direito para indivíduos e entidades coletivas para manter as coisas perto. Segredos e tipos diferentes de informações que poderíamos considerar privadas são mantidos ou divulgados como formas de negociar intimidade e enquadrar a vida doméstica. Assim, neste contexto, Assange explora a dinâmica do sigilo e da verdade em comunidade, trabalho e contextos pessoais, os contextos que moldam ideias de privacidade e confidencialidade, e as responsabilidades que estes contextos institucionais e interpessoais implicam numa sociedade global. Mas, a divulgação (por exemplo, uma nota sobre um arquivo diplomático) pode levar à exposição e à exposição à exclusão social.  Como as pessoas falam sobre segredos, e assim as compartilham narrativamente, também importa.

Para outros, como no caso de Chelsea Manning, certos sinais visíveis no corpo – uma cicatriz, uma tatuagem, ou um piercing, por exemplo, são sinônimos privados de atos ou eventos não expressos/indizíveis, novamente incorporados que carrega o passado para o futuro. O trauma de alguma dor também pode estar além do discurso (Oliver, 2001). Em seu artigo sobre Soldados dinamarqueses que retornam do Afeganistão, Refslund Sørensen (2015), baseia-se na noção de “testemunho de carne” para se referir à experiência vivida da guerra que vai além da narratividade, referenciando a indiscutibilidade das experiências de terror em campo. Terror e medo, como tristeza e dor inibem a possibilidade de falar o segredo sem reduzir suas dimensões.

Estratégias secretas

A revelação de um segredo é performativa. Compreendendo ou informando uma narrativa pessoal, transmitir um segredo não simplesmente revela o que estava oculto; revela a política por trás disto. Como já observamos, contar um segredo tem um objetivo, como criar intimidade, buscar perdão, testemunhar e perseguir a justiça. Existem benefícios psicológicos e emocionais para muitos em contar, mas o compartilhamento de segredos também pode ser calculado (Ohlweiler; Cademartori, 2018).

As pessoas são recompensadas por contar segredos, bem como por manter eles, e segredos são uma maneira de controlar as repercussões de revelação, por exemplo, de identidade sexual ou estado de saúde, violência ou um ato ou associação transgressora, as pessoas aprendem adequadamente scripts e funções específicas, realizando a vitimização para fins estratégicos também (Giordano, 2015).

A divulgação ou exposição de um segredo ou uma série de segredos, como é o caso do Wikileaks e mais recentemente na política brasileira, o caso da #VazaJato, não necessariamente facilita a justiça social, e nem sempre é evidente quem ganha através da sua recontagem. Onde a narração é orquestrada pelo Estado, o dizer é instrumental e tático, então uma versão particular da vida, ou eventos críticos, se inscreve. Mas também, apesar de variações na narrativa e na contabilidade pessoal, as pessoas seguram certas versões de sua vida como forma de enquadrar a identidade. Contar ou não, e lembrar ou não, ocorre neste contexto. A vida privada e pública é embaraçada à medida que segredos são trazidos para o domínio público, como ocorre na verdade a reconciliação, mas também, inevitavelmente, quando nós publicamos nosso próprio trabalho. Considera-se que os segredos são mantidos por indivíduos e retido em todos os locais, nacionais e sistemas globais de governo, comércio e segurança. Instituições, como pessoas, podem ter segredos “necessários”, e assim elas assumem o direito de garantir certas informações. Essas instituições definem como certas informações podem ser coletadas, editadas, curadas, transmitidas e exibidas para consumo público. Governos e outras organizações estabelecem mecanismos – leis, regras e regulamentos, normas e atitudes – que limitam o poder dos indivíduos, reforçam a valência do segredo, servem para ampliar ou restringir a autonomia dos indivíduos para acessar, manter e expor segredos e definir os direitos em cascata das informações que reforçam as relações de poder existentes. Instituições do Estado, organizações independentes e corporações mantêm segredos que podem proteger as economias, evitar a especulação e controlar o poder.

Segredos revelados

Como está aparente a partir da discussão anterior, um dos nossos intuitos é levantar questões construtivas para a prática da antropologia e sua relação com a produção de conhecimento nas sociedades contemporâneas e, em particular, as relações da antropologia e do segredo e sua politização. Assim, público e as instituições têm um papel central na gestão do conhecimento e dos segredos, públicos e privados. Também consideramos como a divulgação do Wikileaks, a exposição e a exibição implicam outras questões em torno de documentos oficiais, textos, imagens discursos públicos sobre direitos e responsabilidades.

Nesta linha de argumentação, enfrentamos a morte do segredo ou o direito de poder sobre os segredos. Anteriormente comentamos que contar um segredo o chama à existência no momento de sua morte. Uma morte mais literal da possibilidade do segredo está em jogo na crescente capacidade e interesse em “grandes dados” e suas tecnologias, e a ideia implícita de que a privacidade e a capacidade de construir um segredo sobre isso agora é apagada pela coleta, retenção e escrutínio de dados sobre os indivíduos até os ataques de hackers. Como já observado, as instituições públicas governam a vida privada e administram informações pessoais de nós, cidadãos, impondo ordem em vidas individuais no interesse de um bom governo. Exemplos incluem domínios biopolíticos, bem-estar e cidadania. O Wikileaks examina a capacidade crescente e imperativa de coletar informações e as questões importantes de confiança e poder do desenvolvimento político global. Os colaboradores secretos contribuem e examinam os pressupostos tácitos de verdade que sustentam a base de conhecimento da administração social e as implicações para os públicos. Estamos cada vez mais conscientes do poder e responsabilidade de manter e revelar conhecimento a públicos maiores, as implicações éticas das decisões de manter ou revelar segredos, e até que ponto o sigilo facilita a evasão de questões morais (pessoal e institucional). O controle institucional de conhecimento ocorre em todos os tipos de organizações, mas aqui, a prática do Wikileaks está sob o sigilo sagrado de certos itens, como a criptografia criada por Assange incapaz de ser hackeada, mas que por causa da procedência questionável de fontes, os desafios passam a estar associados a revisitar questões problemáticas relacionadas à tutela institucional dessas materialidades que se tornam de importância histórica global. Aliado a essas preocupações, as questões parecem difíceis à formação de verdades (particulares) que exigem de indivíduos e grupos novas revelações para provar seu próprio direito e propriedade de determinados conhecimentos e informações reveladoras. O papel de Assange, como editor ou narrador é contar uma história dos “fatos” gerados para produzir um momento histórico que determina o que pode e não pode ser mostrado ou informado, exposto ou exibido. Mas isso também significa que exposições prévias, produzidas em diferentes épocas e éticas, tornam-se uma pré-história. Isso cria seus próprios problemas, porque qualquer exposição se torna um fato de época.

A mídia e seus sigilos

Consumidores da mídia contemporânea estão sujeitos à política de conhecimento e poder, segredos e sigilo. A teoria crítica e midiática sugere que os públicos, bem como o próprio segredo performativo, são convocados no ato de abordá-los (Warner, 2002). A vida pública é moldada através de várias práticas de dizer: escândalo e fofoca, exposição e vazamentos (Coleman 2013; Madison 2014). O Facebook também pode ser considerado um convite em um arquivo mais ou menos público de si mesmo, um auto museu, cuidadosamente curado para efeitos sociais e às vezes comerciais (Davis 2009). Museus, comissões de inquérito e arquivos online, oficiais ou não, tudo figura neste aspecto do nexo público/privado. A mídia opera dessa maneira, constituindo-se em seu endereço para os públicos. Meios de comunicação, no entanto, estão implicados na indefinição do público e do privado; através da mídia, a vida pública se intromete tanto no espaço privado que o que foi considerado privado agora é moeda de troca pública.

O jornalismo investigativo também trabalha com a ideia de revelação, descobrindo o segredo para revelar duplicidade, cumplicidade e desonestidade. Muito disso pode ser pensado como um comércio de segredos; encontrá-los, descobrindo e circulá-los. Essa sede pelo privado fez o público atingir indiscutivelmente novos patamares na realidade midiática. Muitas vezes nos dizem que a privacidade está desaparecendo, que os segredos mais íntimos estão abertos à sondagem pública, mas a realidade é o oposto: o que está efetivamente desaparecendo é o espaço público. O dilema, para todos nós, é que se tudo é conhecível, se o privado é inexoravelmente transferido e transferível para espaços públicos, o que é a vida pública? Levantamos essas questões para a política contemporânea pela invasão da vida privada ao domínio público.

Vivemos na cultura da mídia confessional (Denzin,1995), mas essa valorização e materialização dos destaques secretos é um fetiche por mostrar o que está escondido. A revelação do segredo através de vários meios de comunicação é acoplada à sua politização. Nos mundos pós-industriais, há enorme capacidade tecnológica para saber, mas também para dizer: através de sistemas de computador, telefones, blogs, tweets, selfies e Facebook. As pessoas usam essas tecnologias de auto revelação particularmente em maneiras que lhes permitem representar com quem querem estar, é a proteção da privacidade através do intermediário tecnológico. Tais sistemas permitem uma combinação de gestão e fantasia, criando apenas uma ilusão de que não há espaço para o silêncio e segredos não revelados. Outras mídias se intrometem de maneira que privam as pessoas de privacidade. O vídeo dos smartphones, por exemplo, se torna um dispositivo autorizador que revela um viés forense – a imagem é a prova da veracidade do relatório. Esta tecnologia inclui a velocidade de circulação de imagens da mesma maneira que SMS, e provou ser de ajuda para fins sociais, mas também pela quantidade de dados que pode ser capturado pelo pequeno aparelho. Sua atração reflete o compromisso de pessoas à exposição como meio de perturbação e redistribuição de poder e surgimento da vida política formada na interseção de novas mídias e na morte do segredo.

Segredos classificatórios

Arquivos e big data estão implicados nas tarefas de “capturar” as informações sobre indivíduos que permitem governabilidade. Instrumentação, listas de verificação, procedimentos de diagnóstico, diagramas, fluxos financeiros, arquivos, regras e regulamentos de acesso a arquivos moldam o que é conhecido e em que formato. Poucas organizações têm caixas de seleção com mais de dois gêneros, por exemplo.

Corpos, fragmentos corporais e identidades são registrados, enumerados, interrogados, nomeados, depositados, animados e fixos. Ao mesmo tempo, há um entendimento de que o Estado tem o direito de manter e acessar segredos e auditar culturas pelos sistemas de transparência financeira. Erikson (2015) sugere que a atividade de governos e grandes empresas é realizada em segredo, mobilizando apelos à transparência. Sistemas e processos de transparência, no entanto, articulam poder e, especificamente no caso das grandes empresas, o valor comercial da capacidade de preservar um segredo dos concorrentes ou de camuflar a propriedade e investimento para mitigar o risco de especulação. A transparência se tornou uma mercadoria em si mesma, produzindo e executando interesses do Estado e do capital privado.  A transparência também está implicada na revelação ou desvelamento dos segredos do eu através das tecnologias de diagnóstico (Kitanaka 2015; Squire 2015). Testes de DNA são um meio de revelar um segredo. Identificar segredos no corpo, capturados em imagens digitalizadas por e-mail e recolhidas por um iPhone por um cirurgião, é um exemplo. Apesar dessas preocupações em torno da propriedade e uso da informação, há considerável elasticidade moral em como, por que, e quando estes instrumentos são usados. Há uma cumplicidade na produção e uso de tecnologias para produzir verdades particulares, e direitos das pessoas e acesso a bens, serviços e participação na vida social são moldados pela sua vontade de cumprir essas tecnologias.

Wikileaks e os dados confidenciais

O Wikileaks também tem sua própria metodologia de pesquisa distinta, que não é prontamente comparável a qualquer coisa que conhecemos nas ciências sociais. Não é imersão no trabalho de campo e interação conversacional com informantes (seus informantes são desconhecidos para eles) – mas eles aprendem muito sobre atores através de documentos, e através das ações dos atores em reação à liberação dos documentos (de uma forma que nenhum antropólogo poderia alcançar, dadas as restrições de seus métodos escolhidos). O Wikileaks não envia agentes para as instituições cujos comportamentos desmascara. Não é uma pesquisa de laboratório científico: o Wikileaks não se envolve em experimentação, com variáveis ​​controladas. Não é uma metodologia naturalista nem experimental. Só isso é algo novo para nós. O Wikileaks, no entanto, compartilha algumas das limitações metodológicas das ciências sociais clássicas por ser em grande parte centrado no Estado: ele não nos apresenta dados sistêmicos do mundo, mas dados obtidos de Estados e bancos (que, claro, têm implicações transnacionais). Cabe ao pesquisador agregar valor analiticamente e levar os dados além de si.

Isso não significa que os antropólogos sejam estranhos à experiência de fazer pesquisas com documentos estaduais confidenciais que eles mesmos obtenham ou com o ato de vazamento polêmico sobre as atividades de colegas prejudiciais à reputação da profissão. Os antropólogos não são estranhos ao sigilo, obtendo documentos secretos, trabalhando com documentos secretos, respeitando os segredos locais e debatendo a prática antiética de fazer pesquisas secretas. Onde o Wikileaks difere da antropologia – o que ele tem que nos ensinar – é sobre uma ordem de sigilo qualitativamente diferente, o afeto comunitário que mantem uma ordem harmoniosa; em vez disso, também existem segredos contra a comunidade, contra a sociedade civil, como uma traição de qualquer contrato social real ou imaginado entre governantes e governados (especialmente quando se trata da super classificação de tudo que pertence ao Estado, ao mesmo tempo em que o cidadão é revelado). Onde as noções de assimetria, controle social e poder entram em cena? Há alguma correspondência entre o que o Wikileaks revela e o que alguns jornalistas analisaram (Leigh; Harding, 2011). No entanto, com o conflito entre o governo dos EUA e o Wikileaks há muito a ser aprendido sobre o exercício de poder do Estado, como se aplica ao sigilo e à contra vigilância, especialmente em termos da extensão real do poder contemporâneo.

Considerações Finais

Segredos podem ser revelados através da narrativa e processos de exposição, segredos podem ser revelados através de nomes, linguagem corporal e estratégias de silêncio. A arquitetura de revelar segredos pode assumir a forma de novas tecnologias, novas normas divulgação e práticas relacionadas de exposição e exibição de algumas circunstâncias que desafiam a base pela qual os indivíduos e os coletivos podem reivindicar o segredo e exercer controle sobre informar e reter informações. A dinâmica de quem diz o que, quando e para quais fins são trazidos em primeiro plano, na vida pessoal e na administração e conduta cotidiana das instituições do Estado. Esse conhecimento também atrai valor, vendido para interesses comerciais ou criando mercados para novas formas de proteção da informação e reafirmação da implicação do segredo. Estas preocupações também se cruzam com as possibilidades para as instituições que reparam, sustentam e celebram a vida pública –  todos nós estamos sujeitos a essas tensões relacionadas à politização dos segredos, Julian Assange e o Wikileaks foram parte de uma história que revelou segredos globais.

REFERÊNCIAS

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