Janet Carsten

Janet Carsten

A obra de Janet Carsten (2004) “After Kinship” é, em parte, um ensaio sobre o tema “o que aconteceu ao parentesco?” E sobre as maneiras em que nossos conceitos mais familiares de parentesco estão mudando. Certamente, muitas pessoas estão confrontadas na sua vida cotidiana e nas representações da mídia por alguns tipos aparentemente desconhecidos de parentesco – mas um novo mundo de possibilidades engendradas por intervenções tecnológicas.

Carsten (2004) parte de três casos para debater a inseminação artificial e as novas relações de parentesco que surge a partir das tecnologias reprodutivas. No primeiro caso, a autora apresenta o casal Blood.  Stephen Blood está em coma. Seu esperma é removido sem seu consentimento prévio e nem por escrito. Ele estará morto em alguns dias e sua esposa Daiane Blood tenta conceber um filho antes da sua morte. Ela revoga para si e declara ter direitos sobre o esperma do marido. O professor Ian Craft ajuda Daiane com algumas declarações salientando que a mulher tem o direito de submeter à interrupção da gravidez ou uma histerectomia sem a permissão do seu parceiro. Impedir a mulher de engravidar em tais circunstâncias é uma violação da liberdade individual.

Já no segundo caso, uma série de debates se inicia e intensifica em Israel sobre a inseminação artificial baseando-se em questões centrais como: pode ser adquirido esperma para inseminação artificial a partir de judeus, uma vez que a masturbação é proibida pela lei religiosa judaica? A aquisição de esperma é considerada complicada nesse caso. Mas o interessante é que o esperma não-judeu não afeta a identidade judaica da criança desde que o judaísmo seja herdado da mãe.

  • Crianças nascidas com pais judeus, mas com esperma de não-judeus são considerados bebês-judeus.

Israel tem uma preocupação vital com a reprodução de judeus. As discussões arcaicas dos rabinos ortodoxos  sobre o que constitui um judeu tem relevância política direta. A reprodução da família e nação torna-se intimamente ligadas.

No caso terceiro a autora apresenta Anna, mulher casada na casa dos 30 que está se preparando para encontrar sua mãe biológica. Ela lembra que aos 8 anos que escutou uma conversa da sua mãe com o tio David sobre a “verdadeira mãe”. Foi a única vez que ela se lembra de chorar. Depois de 10 anos e com duas filhas Anna decidiu ir atrás da mãe biológica. Ela contou com a ajuda de uma agência de adoção que aconselhou a acessar sua primeira certidão de nascimento original e em seguida os registros no tribunal sobre a sua adoção. No final da trajetória de Anna ela descobre que a mãe acabara de falecer causando diversos transtornos emocionais e afetivos.

Um tema central dos capítulos que se seguem é a distinção que é feita, tanto em análises dos antropólogos de parentesco e em noções folclóricas indígenas, entre o que é “natural” em parentesco e que é “cultural”. O parentesco pode ser visto como dado por nascimento e imutável, ou ele pode ser visto como moldado pelas atividades normais, cotidianas da vida familiar, bem como os esforços “científicos” de geneticistas envolvidos no tratamento de fertilidade ou medicina pré-natal.

No passado, os antropólogos têm visto a distinção entre social e biológico do parentesco como fundamental para uma compreensão analítica deste domínio. Para a maior parte, os antropólogos reuniram esforços para compreender os “aspectos sociais” de parentesco, deixando de lado o pré-dado e o “biológico” como estando fora seus conhecimentos. Mas cada vez mais, esta separação, que é sem dúvida fundamental para entender casos ocidentais de parentesco.

O contexto em que a autora busca abordar esse tema parte da seguinte questão: – O que aconteceu ao parentesco? A partir deste momento, Carsten procura compreender estes novos desenvolvimentos no contexto de uma literatura antropológica em que a comparação transcultural é a ferramenta metodológica mais proeminente.

Assim, ao relacionar o tema de parentesco e suas tecnologias ao meu objeto de estudo, o telefone celular, posso fazer algumas ligações com o campo que renderiam questionamentos interessantes. Nos aplicativos e nas redes sociais como o Facebook é possível construir a árvore genealógica da família biológica, quanto a construção de relações imaginárias com amigos e pessoas próximas. Foi possível também, ao pesquisar parentescos e redes sociais online, a descoberta de aplicativos apenas para as relações de família, como os que seguem.

Para além da construção de parentesco, novas perspectivas se abrem também no mundo virtual para a criação de laços afetivos. A ideia de que um jovem torna visível um relacionamento e o representa através de categorias pré-concebidas pelos aplicativos e redes online pode ser um novo fator de objetivação das relações de parentesco no século XXI que só é possível em um mundo virtual e através de novas práticas sociais que convergem na informática, microeletrônica e biologia.

Referências Bibliográficas

CARSTEN, Janet. “Introdution” e “Gender, Bodies and Kinship”. IN: After Kinship. Cambridge: 2004.

MACHADO, Igor. A antropologia de Schneider: pequena introdução. EdUFScar: 2013. Cap. 2-3.