Hormônios no Espaço

Hormônios no Espaço

Astronautas, testosterona e masculinidades hegemônicas

Para o cientista, o homem não é mais que um observador do universo em suas múltiplas manifestações. O progresso da ciência moderna demonstra com muita força até que ponto este cosmos observado, infinito e desconhecido alimenta nossa visão e percepção do sentido humano, assim como cria instrumentos extremamente engenhosos para novas descobertas. O desejo de viajar para o universo é tão antigo quanto a humanidade, mas só no século XX nossa tecnologia alcançou a imaginação. Entre 1961 e 1963, o Projeto Mercury da NASA lançou seis espaçonaves tripuladas na órbita da Terra, e a União Soviética também enviou seis homens para o espaço. 

Ambas as nações estavam tentando aprender como o corpo humano funcionava no espaço, e como seres humanos e naves espaciais poderiam ser trazidos de volta à Terra em segurança. Os americanos chegaram primeiro pondo os pés na Lua com a Apollo 11 em 20 de julho de 1969, um dia marcado na história para as descobertas espaciais. Mesmo que a corrida tenha sido ganha, a exploração continuou. Um total de 12 homens caminharam com sucesso na Lua nos anos seguintes, todos norte-americanos, nesse período, nenhuma mulher foi levada ao espaço.

Quando relacionamos os estudos espaciais e as relações de gênero os dados da ciência moderna espacial em questão aparecem como “mensageiros misteriosos do mundo real” (ARENDT, 2007), embora estes fenômenos, aparências, não são encontrados em nosso mundo cotidiano, mas continuamos a saber da sua existência a partir de laboratórios em que estes instrumentos de alta tecnologia afetam, em certa medida, nossa maneira de perceber o infinito desconhecido do universo e a posição que ocupamos aqui na Terra, muitas vezes de forma subjetiva. O que se passa a tratar desde a conquista espacial é o desenvolvimento real da ciência não importando suas origens ou a igualdade de gênero nesta questão, mas esse tipo de indagação é crucial em num mundo em que só os cientistas “entendem” e cujo conhecimento superior lhes dá o direito de governar os “muitos”, ou seja, todos os não-cientistas, aqueles que levantam questões pré-científicas. Hannah Arendt (2007) nos diz que o novo universo que tentamos “conquistar” não é apenas praticamente inacessível, mas nem sequer pensável, pois essa busca talvez seja tão sem sentido quanto um “círculo triangular”, diz ela. Além disso, o cérebro humano que supostamente produz o nosso pensamento é tão terrestre quanto a Terra, como qualquer outra parte do corpo humano. Foi precisamente abstraindo dessas condições terrestres, apelando para um poder de imaginação e abstração que, por assim dizer, levantaria a mente humana fora do campo gravitacional da Terra ao olhar para fora alguns pontos no universo, e foi assim que a ciência moderna atingiu a sua mais “gloriosa realização desconcertante”, como diria Hannah Arendt (2007), ao levar o homem para o espaço.

E, no entanto, uma mudança real do mundo humano, a conquista do espaço ou o que quer que possamos chamá-lo, é alcançada apenas quando portadores espaciais tripulados são atirados no universo, para que o próprio homem possa ir onde até agora apenas a imaginação humana e seu poder de abstração, ou engenhosidade humana e seu poder de fabricação, poderia alcançar. Para ter certeza, tudo o que planejamos fazer agora é explorar nosso próprio ambiente imediato no universo, o lugar infinitamente pequeno que a raça humana poderia alcançar mesmo se fosse viajar com a velocidade da luz, ainda estaríamos presos em nossa Via Láctea. Mas mesmo para esse trabalho limitado, os astronautas têm que deixar o mundo dos sentidos e dos corpos, não só na imaginação, mas na realidade. Em qualquer evento, o homem, na medida em que ele é um cientista, não se preocupa com sua própria posição no universo ou sobre sua posição na escada evolucionária da vida animal; esse “descuido” é seu orgulho e sua glória, e assim, as masculinidades hegemônicas de guerreiro, desbravador, conquistador, flerte com a morte torna-se um marcador perante outras masculinidades também e não apenas à oposição feminista.

A partir disso, concluímos que a busca moderna por “verdadeiras realidades” por trás de meras aparências, levou a uma situação em que as próprias ciências perderam a objetividade do mundo natural, de modo que o homem em sua busca por “realidade objetiva” de repente descobriu que ele sempre “se confronta sozinho”. O astronauta, atirado para o espaço exterior e preso em sua cápsula cheia de instrumentos, onde cada encontro físico real com seu entorno significaria morte imediata, poderia muito bem ser tomado como a encarnação simbólica do homem que nunca para encontrar nada além de si mesmo. No entanto, mesmo que o homem reconheça que pode haver limites absolutos para sua busca de conhecimento e que pode ser sábio suspeitar de tais limitações sempre que acontece que o cientista pode fazer mais do que ele é capaz de compreender, e mesmo se ele percebe que não pode “conquistar o espaço”, mas na melhor das hipóteses, fazer algumas descobertas em nosso sistema solar, a jornada ao espaço está longe de ser um empreendimento inofensivo ou inequivocamente triunfante. Chegamos à nossa atual capacidade de “conquistar espaço” através de nossa nova capacidade de lidar com a natureza de um ponto no universo fora da Terra, mas este espaço está reservado ao masculino, em sua maioria.

“Estudos recentes sobre ciência e tecnologia tornaram disponível um argumento muito forte sobre a construção social de todas as formas de conhecimento, mais especialmente, e com maior segurança, das formas científicas. Nessas visões tentadoras, nenhuma perspectiva interna é privilegiada, já que todas as fronteiras internas-externas do conhecimento são teorizadas como movimentos de poder, não movimentos em direção à verdade” (HARAWAY, 1995, p. 09).

Em “Saberes Localizados”, Haraway (1995) nos conta o feito da revista National Geographic Society ao apresentar a corrida espacial em dois capítulos. O primeiro intitulado “Espaço” narra, segundo a autora, as conquistas espaciais e exibe fotos surpreendentes de planetas agrupados para que nós, tenhamos uma visão do momento da descoberta destes objetos. Estas conquistas e achados, deveriam e são, ao longo das décadas, comemoradas como um feito heroico da produção tecno-científica. O segundo capítulo “Espaço Interior” são imagens microscópicas de células e vírus, um conglomerado de imagens que nos dizem uma verdade que, segundo Haraway, seria um “truque de Deus”. Com esta mediação tecnológica nossa visão estaria no caminho de uma objetividade não inocente, “há boa razão para se acreditar que a visão é melhor abaixo das brilhantes plataformas espaciais dos poderosos” (HARAWAY, 1995, p. 22). É neste entorno que Haraway coloca que devemos trilhar em favor do conhecimento situado e corporificado e que verdades postuladas não localizáveis estariam sob uma irresponsabilidade ao prestar contas.  Assim, estes saberes subjugados que estariam na borda ou nos abismos e não teriam posicionamentos isentos de uma avaliação crítica, e é o que buscamos fazer aqui. Essa escrita, apresenta uma visão de um saber localizado a partir das mulheres que não são requeridas para serem astronautas, não são contempladas com estudos científicos, muito menos selecionadas para missões no mesmo contingente masculino. Este esquecimento, esta negação, este ato de desaparição requer tanto conhecimento como “visualizações” tecno-científicas. Uma das saídas propostas por Haraway seriam os saberes parciais localizáveis, um relativismo que estaria em toda parte. É neste momento que entramos no caminho da autora que propõe uma prática da objetividade que privilegia a contestação, a desconstrução e as conexões em rede como uma forma diferente de ver os mecanismos já estabelecidos pela ciência e que se apresenta naturalizado, estabelecido, incontestável. São estas maneiras de ver, nossa visão, que se busca uma autocrítica.  A seguir, buscamos entender como as relações de gênero se entrecruzam pela ciência e medicina espacial. Acompanhe o próximo post!