Esboço de um feminismo latino-americano (María Luisa Femenías)

Esboço de um feminismo latino-americano (María Luisa Femenías)

a) UM TERRITÓRIO POVOADO => Por um lado, a América Latina nasce das próprias contradições do Iluminismo e de sua busca para se tornar autônoma. Os países que atualmente compõem originam e são estruturados como os Estados modernos sobre os fundamentos filosóficos da ideologia cujas noções fundamentais são a igualdade, o universalismo e liberdade. Além disso, a sociedade latino-americana se baseia em três raízes básicas da população: o nativo indígena, o europeu “branco” e o “negro” (ao qual se juntou mais recentemente imigrante da Ásia); onde as questões próprias do feminismo pós-colonial, multicultural, eco feminismo, pensamento de subalternidade, adotam a concepção de políticas de identidade. Nossa constituição que tem sido historicamente insuficiente – nós adicionamos um conglomerado de questões materiais. Sobretudo, na medida em que o proclamado universal poucas vezes se aplicou distributivamente por igual a todos os membros da sociedade, discriminado por sexo-gênero, por etnia e classe. Muitos mecanismos de inclusão/exclusão das mulheres têm seguido um curso fundamentalmente próprio atravessado pela diversidade étnica e cultural (incluindo a religião), muitas vezes, também, mascarando questões de classe envolvida.  Isto significa que a superação, reforma ou compreensão do segregacionismo naturalizado que apela para as diferenças dos sexos não é suficientemente explicativa. Na maioria dos casos, a discriminação se potencializa em termos de sexo-etnia.

b) TRÁFICO DE TEORIAS => Se as teorias se transladam de modo diretamente proporcional ao seu grau de generalidade, apropriar-se implica em um processo de produção de novos significados contra a indiferença, o monopólio ou hostilidade. Por isso, graças a tais transferências e ao vínculo que se estabelece entre as teorias e os subalternos, se produz um lugar de apropriação que resulta a fratura radical do discurso hegemônico originário, aos efeitos de sua revalorização e de sua ressignificação contextualizada.  Todos constituem pontos de saturação que favorecem a tradução de significados em termos de alteração e reacomodação. O des(re)encontro das teorias feministas mais heterogêneas se produz em resposta a diferenças étnicas, de classe, de orientação sexual, de nacionalidade, de língua e tradições. O minucioso trabalho de tradução, de citação de ressignificações, de ruptura de contextos e de reincorporação de conceitos marca o lugar de direito da produção de saberes, como diferente da repetição. Onde o tráfico de teorias contribui também a conformação de um espaço único (não homogêneo) ao analisar criticamente conceitos e posições.  Nossa condição geo sociopolítica, a nossa consciência de real contribuição ao discurso feminista e ao modo que nos permite organizar explicações alternativas nos termos de contribuição teórica promovam uma melhor elaboração, clarificação e compreensão de teses fora de nossa experiência crítica.

Portanto, o primeiro passo é rever nossas próprias contribuições teóricas ressignificadas.  A seguir, relatando o problema das intransitáveis propostas dentro do próprio território latino-americano, na medida em que a sua posição “igualitária” não é nem equivalente, nem equipotente ou simétrica ou recíproca. Portanto, os discursos alternativos apostam a revelar a assimetria real de nossas posições sobre a retórica da igualdade e da universalidade, não para rejeitá-las, mas para exigi-las efetivamente. Apostam a desarticular os modos – localizados e situados – da exclusão. Nossos discursos alternativos favorecem a ruptura político-epistemológica dos contextos naturalizados e abrem espaço de compreensão e ressignificação.

c) POLÍTICAS DE LOCALIZAÇÃO – SITUAÇÃO => Deste ponto de vista, nossa imprevisibilidade típica pode ler-se, por um lado, como uma forma de resistência da inscrição completa e acabada segundo um ideal submisso e doméstico; mas, por outro, também como exemplo de uma experiência crítica, marginal e periférica, que rejeita o lugar de Outra exótica e emocional que foi prescrito. Ou seja, que dá conta de nossa experiência crítica deslocada no tanto que nos constituímos em outras inadequadas que emergem precisamente onde os discursos hegemônicos não nos esperam.

d) IDENTIDADES NEGOCIADAS – IDENTIDADES MESTIÇAS => O desafio mais importante que se impõe é detectar as interseções onde cor, classe, etnia, gênero potencializam a exclusão e geram distorções a populações com mais alto grau de homogeneidade. Por isso, obriga a gerar teoria para compreender e desmontar os modos em que o racismo e o sexismo são reforçados em nosso território, para buscar soluções alternativas que favoreçam o reconhecimento, distribuição e convivência. A transversalização das estruturas patriarcais com a variável étnica está dando lugar a um número crescente de trabalhos que contribuem a nossa melhor compreensão do problema.

            Embora algumas pesquisadoras latino-americanas tenham suas diferenças teóricas e temáticas, aportam com um eixo compreensivo: reconhecimento, universal, particular. Desvelam a opressão simbólica do “imaginário” branco como universal, onde a “etnización” se entende em termos de inferioridade, marginalização e criminalização tanto de homens ou mulheres. Não é simplesmente uma marginalidade econômica; implica a falta de visibilidade e de representação. Assim, apenas a redistribuição econômica – essencial – não é suficiente. Assim também, o sucesso dos modelos políticos que dão grandes ações de reconhecimento para os setores “impuros” da sociedade. Nesse sentido, o trabalho a partir da noção de identidades negociadas pode ser tão útil e esclarecedor e enriquecedor. Tudo isso favorece a constituição de sujeitos multiculturais, de identidades múltiplas, capazes de desarticular as estruturas identitária naturalizadas, e de promover fortes mudanças em seus grupos de pertencimento. Em princípio, porque promove a experiência fundamental para revisitar os mandatos de sexo-gênero / etnia / religião / função / escolha classe sexual / social, etc.