Dramas sociais

Dramas sociais

O antropólogo Victor Turner parte do conceito de drama social como algo de caráter ativo em um processo que atravessa nossas relações sociais, neste contexto, o autor apresenta os dramas dos Ndembu. Ao pensar a possibilidade de contradições e sofrimentos (communitas) os ritos tornam-se múltiplos em um sistema social de crenças e práticas. Desta forma, os dramas sociais se religam à estrutura como “uma sucessão encadeada de eventos” que perpassam significados em um fluxo de tempo.

Partindo das quatro fases de ação pública para os dramas sociais, proposto pelo mesmo, busco um olhar sobre a pesquisa que desenvolvo a partir de aspectos da vida dentro de uma estrutura e que foram de alguma forma representada através dos atores através de metáforas, e aqui entendo como narrativas e imagens.

1) Ruptura com as relações sociais formais: perceber o jovem que se apropria do smartphone compulsivamente como uma noção de isolamento do grupo em relação a outros baseado apenas em subjetividades;

2) Tendência para o alargamento da ruptura: através do uso e do conteúdo gerado para as redes online dar visibilidade apenas para aspectos individuais e emotivos da vida privada partilhando uma noção de estilo de vida.

3) Ação corretiva (não perpetuar a difusão da crise): minhas barreiras ultrapassadas enquanto pesquisadora de dispositivos móveis foram deixar de visualizar o telefone celular apenas como objeto técnico para fixar nomes e lembranças, é preciso pensar para além da legitimidade da cultura juvenil diante da parental pelos usos e apropriações dos dispositivos móveis e refletir sobre a produção própria  de conteúdo de ambas as gerações.

4) Reintegração e reflexão do pesquisador ao grupo estudado: ao romper com a perspectiva do telefone celular apenas como objeto material procuro compreender através das narrativas do corpo exposto em selfies um lugar de reflexão de como certos aplicativos revelam um imaginário social e alguns sistemas simbólicos contemporâneos.

Para Dawsey (2005) a noção de drama social pode ser um arcabouço para englobar metáforas e experiências, e lança no percurso metodológico alguns desvios necessários que figuram como anti-estrutura. O autor acredita que Turner procure acompanhar movimentos surpreendentes da vida social,

“experiências que irrompem em tempos e espaços liminares e que podem ser fundantes. Dramas sociais propiciam experiências primárias. Fenômenos suprimidos vêm à superfície. Elementos residuais da história articulam-se ao presente. Abrem-se possibilidades de comunicação com estratos inferiores, mais fundos e amplos da vida social. Estruturas decompõem se – às vezes, com efeitos lúdicos” (DAWSEY, 2005, pg. 165).

Ao refletir sobre a minha investigação e na relação que tenho com meus interlocutores, principalmente nos primeiros contatos, alguns usuários dos aplicativos de relacionamento que pesquisa, apesar de concordar com as entrevistas ainda acreditavam que seria possível existir algum tipo de relação amorosa com a pesquisadora, estas são algumas particularidades pela escolha do objeto de estudo a ser investigado. Meinerz (2007, pg. 93) nos atenta para os dilemas metodológicos, teóricos e éticos que compõe a relação entre a pesquisadora e o grupo pesquisado. Embaraços e saias justas foram e são constantes no decorrer da observação participante e durante este percurso foi fundamental a compreensão das dificuldades que se estabelecem em um diálogo virtual através de negociações e esclarecimentos.

Referências Bibliográficas

DAWSEY, John C. Victor Turner e antropologia da experiência. Cadernos de campo, n. 13: 163-176, 2005.

MEINERZ, N. Um olhar sexual na investigação etnográfica: notas sobre trabalho de campo e sexualidade. IN: FLEISCHER, S.; BONETTI, A. Entre saias justas e jogos de cintura. Florianópolis: EDUNISC, 2007.

TURNER, Victor.  Dramas, campos e metáforas. Niterói: EdUFF, 2008. Capítulo 1.