Desafio: presença e escrita etnográfica do mundo virtual

Desafio: presença e escrita etnográfica do mundo virtual

O debate sobre a escrita etnográfica e sobre o que teria tornado-se a antropologia é o que Geertz (2005) questiona ao produzir considerações sobre diversas e múltiplas realidades, focando-se nos estudos em Java, Bali e Marrocos e levantando questionamentos sobre como cada cultura construía a noção do “Eu” como pessoa. A partir das preocupações com o texto construído pelos antropólogos clássicos, Geertz entende a etnografia como movimentos de um discurso literário e não científico e que começa a despontar nos textos principalmente de Freud e Marx inaugurando novas possibilidades de discursos, pois “as representações explícitas da presença do autor tendem, como outros embaraços, a ficar relegadas aos prefácios, notas e apêndices” (GEERTZ, 2005, pg. 29).

Para além de relacionar a escrita etnográfica com a presença do autor em campo, faz-se necessário relacionar experiência-próxima e experiência-distante como percepções e meios do qual o nativo observado compreende as formas simbólicas (palavras, imagens, comportamentos, etc.) e como estas formas representam para si mesmas e para outros, em cada um destes lugares (GEERTZ, 2000, pg. 90).

Como minha pesquisa versa sobre o uso que os jovens fazem do telefone celular, busco uma breve reflexão onde busco apresentar formas simbólicas a respeito deste dispositivo móvel em uma experiência-próxima e experiência-distante tentando operacionalizar o que Geertz propôs.

Entendo que a experiência-próxima parte da interpretação de um informante sobre o que os outros fazem, utilizam ou se apropriam no telefone celular, como por exemplo: o celular, como pode ser observado, é de uso pessoal e raramente ocorre o empréstimo para o outro, salvo emergências para ligações para os pais ou SMS para algum tipo de paquera para marcar encontros. Não é o intuito de esta pesquisa fazer análise de gênero, mas podem-se lançar algumas observações sobre a diferença do uso do aparelho celular entre meninos e meninas. Para os meninos, a cor geralmente não é muito importante, o que realmente é necessário são as funcionalidades como o acesso à Internet, e o tamanho também pouco importa. Para as meninas, a cor do aparelho ou a capinha é acessório de moda e geralmente combina com a cor do esmalte ou da roupa que estão usando no dia.  Por experiência-distante compreendo aquela que é feita por especialistas, etnógrafos e que utilizam de suas teorias para entender o campo pesquisado.

Assim, minha experiência-distante com os interlocutores pode ser possível produzir uma interpretação com o intuito de construir uma análise antropológica, como neste segundo exemplo: A inserção incisiva dos aparelhos móveis no espaço público vem redesenhando as características das práticas urbanas. Para Lasén (2006), a adoção generalizada do uso do aparelho móvel em espaços públicos, principalmente pelos jovens, tem causado mudanças significativas como a tolerância crescente para os usuários que falam alto e escutam música sem fones de ouvidos, tornando-se rotina. Desta maneira, o uso dos celulares no espaço público muda a paisagem urbana e a relação com seus habitantes, diminuindo a invisibilidade habitual do outro, muitas vezes economicamente desprovido de recursos.

Outro tópico que pode ser pensado e relacionado com meu objeto de estudo é “a capacidade dos antropólogos de nos fazer levar a sério o que dizem tem menos a ver com uma aparência factual, ou com um ar de elegância conceitual, do que com sua capacidade de nos convencer de que o que eles dizem resulta de haverem realmente penetrado numa outra forma de vida” (GEERTZ, 2005,          pg. 15). Esta passagem em que o autor aborda a escrita etnográfica fica evidente o comprometimento com o campo e o relato posterior do etnógrafo.

Relaciono, neste exercício, algumas reflexões sobre o campo em andamento e o meu objeto de estudo através de como os informantes percebem, com o que eles percebem e através do que é percebido o telefone celular. Para os jovens de classe popular, a Internet e o telefone são plataformas que parecem empoderar simbolicamente os jovens diante da falta de poder real deles nos espaços institucionais. O poder dos jovens diz respeito ao controle sobre a única coisa que parece que está ao seu alcance controlar: o Eu. Todo o resto é insegurança: estudam mais, mas têm menos emprego, possuem mais destreza com as tecnologias, mas não têm acesso à instância de decisão política, expandem o consumo simbólico, mas não na mesma proporção que o material. As marcas dos celulares, modelos e funcionalidades – carregam o significado de modernidade e conectividade – traçam por vezes o esquecimento da posição de classe inferior perante os jovens de classe alta, pois ter um celular para interagir e circular nas redes sociais não é sinônimo de pobreza.

Para concluir, a importante reflexão de Teresa Caldera (1988) sobre a presença do autor na pós-modernidade me remete aos seguintes questionamentos da pesquisa:

  1. Qual a origem das minhas categorias? Como eu as penso?
  2. Como organizar minhas observações de campo no mundo real/virtual e como será a construção da escrita etnográfica a partir das minhas percepções?
  3. Como abordar o contexto político e uma perspectiva crítica em relação aos usos e apropriações do telefone celular por jovens de classe popular?

Para concluir, deixo aqui minha inspiração na busca por entender, a partir dos textos, como são construídas as relações de poder e como se articula o desenvolvimento econômico e simbólico relacionado ao uso do telefone móvel e compreender a estrutura de produção e a maneira como se produz e distribui bens materiais e simbólicos de uma sociedade a partir do meu objeto de estudo.

Referências Bibliográficas:

CALDERA, Tereza Pires do Rio. A presença do autor e a pós-modernidade em antropologia. Novos Estudos CEBRAP, n. 21, p. 133-157, jul. 1988.

GEERTZ, Clifford. “Do ponto de vista do nativo”. IN: O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis: Vozes, 1997.

GEERTZ, Clifford. “Estar lá: a antropologia e o cenário da escrita” IN: Obras e Vidas, o antropólogo como autor. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.