A testosterona e as masculinidades hegemônicas

A testosterona e as masculinidades hegemônicas

A testosterona, dado seu papel na manutenção óssea e muscular, é frequentemente considerada um mecanismo potencial para as perdas musculoesqueléticas associadas ao voo espacial sendo uma contramedida. Estas considerações baseiam-se em dados de voo muito limitados de humanos e modelos animais que sugerem que os níveis de testosterona são reduzidos durante o voo espacial e nos resultados de estudos baseados no solo simulando o voo espacial (RONCA; BAKER, 2014). A perda óssea, uma preocupação fundamental para viajantes espaciais de longa duração, é tipicamente considerada um problema feminino. Assim, neste estudo mais recente da NASA, cerca 9 mulheres e 33 homens serviram aos testes (SCOTT; SIEGEL, 2014).

A alteração da gravidade provoca alterações na fisiologia e no comportamento devido a perturbações nos ritmos circadianos. Muitas das mudanças, incluindo distúrbios na cognição, massa muscular, força e densidade óssea, também pode ser regulada por hormônios. É possível, segundo estes estudos, que distúrbios hormonais podem contribuir para rupturas fisiológicas e comportamentais resultantes do voo espacial. Se este for o caso, a restauração de hormônios para níveis normais durante o voo espacial é esperada para aliviar estes sintomas e melhorar o desempenho dos astronautas.

Nas primeiras duas semanas dos estudos, em que os astronautas estão na microgravidade, nota-se pouca diferença entre os sexos quando se trata de atrofia muscular. Mas a partir de duas semanas a mulher pode mostrar maior redução do volume muscular. Também se o tempo for superior a 30 dias, a mulher também apresenta maior perda de força do que o homem. Assim como a mulher também apresenta um maior prejuízo na ativação neural. E para finalizar a recuperação da força na mulher, depois que os astronautas voltam da microgravidade, é mais lenta que a do homem (SMITH; HEER, 2014).  Seguindo o resultado das pesquisas, algumas complicações podem ser maiores nas mulheres por causa dos hormônios femininos, como por exemplo: trombose e embolismo pulmonar. É conhecido que as mulheres são mais suscetíveis ao câncer induzido por radiações que os homens, tanto a incidência quanto a mortalidade são 50% maior nas mulheres, um fator que ajuda nesse número é o câncer de mama. Acredita-se que as mulheres são mais suscetíveis a enjoos devido a movimentos de gravidade zero do que os homens. Tripulantes do sexo feminino que voaram no ônibus espacial e estiveram na Estação Espacial Internacional (NASA) relataram tonturas, vertigens e dificuldade de andar em linha reta mais frequente que os homens.

Quanto à paternidade os astronautas homens possuem mais filhos que as astronautas mulheres, pois as mulheres precisam dar um tempo na sua carreira profissional por um período de tempo, isso também faz com que haja menos mulheres astronautas. As mulheres apresentam mais sintomas de depressão que os homens. No quesito personalidade os homens mostraram ter mais competitividade e as mulheres demonstraram ser mais expressivas, esforçadas nas atividades a serem realizadas. As mulheres tentem a ser mais cooperativas, apoiadoras, e mais sensíveis ao bem-estar dos outros da tripulação (RONCA; BAKER, 2014 – tradução minha)

Ao voltarmos nossos saberes para a Terra, ao aterrissarmos em nossos conhecimentos terrenos, temos uma contrapartida na visão e pesquisa de Rohden (2018) que ao estudar o implante de testosterona em mulheres descreve que “todo esse processo é narrado em termos de precisão e objetividade científica, incluindo até mesmo a menção às próprias dosagens e aos valores de referência padrão” (2018, p. 209) o binarismo no caso das mulheres que usam testosterona seria de um corpo normal-anormal, segundo a autora, “todos estes aspectos estão associados à ideia de juventude e qualidade de vida, categorias amplamente utilizadas” (ROHDEN, 2018, p. 213). Segundo ela, o implante testosterona em mulheres estaria ligado a modernidade e alta tecnologia, uma visão diferente dos implantes de testosterona em mulheres astronautas. Para Oudshoorn (2004) os estudos feministas criaram a impressão de que apenas os corpos femininos foram submetidos a mudanças históricas e culturais em seus significados e práticas nos discursos médicos e culturais, assim, o corpo masculino aparece como uma categoria estável, intocada pelo tempo e lugar na história, desta maneira, os corpos masculinos e as masculinidades não precisaram ser questionados. Para a autora, o campo dos estudos em masculinidades tem certa dificuldade em abordar temas relacionado o masculino e as tecnociências.

O conceito de “masculinidade hegemônica” ajuda a determinar como certos grupos de homens exercem versões dominantes da masculinidade ocupando e sustendo relações de poder pela legitimação e reprodução social. Esses relacionamentos geram domínio sobre outras formas de masculinidades e são encarnados por astronautas, neste nosso caso de estudo. Para Kimmel (1998, p. 58), “a masculinidade hegemônica contém dentro dela a imagem do homem no poder, um homem com poder e um homem de poder”.  Desta forma, é cabível ser dito que a masculinidade hegemônica não é um tipo de personalidade ou um personagem masculino, pelo contrário, é um ideal ou um conjunto de normas sociais prescritivas, simbolicamente representadas, uma parte crucial da textura de muitas atividades rotineiras e está atrelada ao ser racional, bem-sucedido, controlador de emoções e longe de atributos femininos, é enfatizado para ele a coragem, a agressividade, o domínio, a habilidade tecnológica, a aventura, etc. O que vale dizer é que as identidades masculinas não são construídas apenas em relação de oposição ou complementariedade ou ainda simetria às identidades femininas, mas às outras identidades masculinas.

Para Preciado (2014), no Manifesto Contrassexual, os códigos da masculinidade são transformados em registros à disposição dos corpos falantes em contratos consensuais. Práticas subversivas que difundem a masculinidade em códigos e categorias devem ser repensadas, como o caso da testosterona “sendo a metáfora biossocial que autoriza a passagem do corpo denominado feminino para à masculinidade” (PRECIADO, 2014, pg. 40). Os hormônios sexuais ainda são regulados pelo Estado e usados como drogas político-sociais, assim como no caso das técnicas médicas que implicam uma atribuição ao sexo, revelando o discurso nos moldes da construção de gênero segundo a heterossexualidade está assentada.

Considerações Finais

Por fim, neste exercício, ao deslocarmos gênero/sexo relacionado aos astronautas em uma visão de saberes localizados sugerimos ser necessário que os sujeitos compreendam o mundo através do sentido da sua existência e não apenas na aparência situadas em verdades científicas estabelecidas e naturalizadas, reduzindo as mulheres astronautas em um sexo meramente construído em discurso relacional à força masculina, sendo produto de uma significação que ganha sentido através da testosterona e dos benefícios induzidos nos corpos masculinos. Desta forma, todo conhecimento acumulado é textual e, portanto, relativo, sendo, portanto, subjetivo. A articulação linguística com que operavam as feministas até 1980 criticava em si as relações binárias que perpassavam os problemas de gênero como sendo apenas estas verdades que importavam ser desconstruídas, quando, na realidade, um discurso de poder operava a linguagem como uma verdade, embora esta fosse indeterminada. Antropólogos e sociólogos contemporâneos apontam para outros estilos de masculinidades que se constituem a partir da relação entre marcadores de gênero. A masculinidade agora é visível, como em outros marcadores sociais (idade, geração, classe, orientação sexual, etc.). Estilos de masculinidades se sucedem na vida de um indivíduo ou na vida em sociedade e se relacionam como masculinidades hegemônicas e masculinidades subalternas, ou seja, elas se hierarquizam, e este exemplo é situado e localizado quando tratamos de mulheres astronautas e o uso da testosterona como uma força e verdade estabelecida.