A mercadoria e os celulares

A mercadoria e os celulares

Os telefones celulares estão presentes no cotidiano de sete bilhões de pessoas, em diversos continentes e em diversas culturas – só no país são mais de 240 milhões de aparelhos[1]. No Brasil, a penetração da telefonia móvel aconteceu de forma lenta e com discursos que advinham da telefonia fixa. Questões de gênero e da narrativa puderam ser observadas desde a década de 1990 até 2010 pelas revistas Veja e Superinteressante desde o início da minha pesquisa em 2011 no programa de Pós-graduação em Comunicação da UFSM. As primeiras representações e significados atrelados ao celular foram ligados aos serviços bancários, viagens e reuniões. Em 1993 o telefone móvel já estava popularizado, artistas, músicos, políticos e empresários faziam aparições públicas com o celular como símbolo de status. A difusão do uso do celular no país, inicialmente, tornou-se um habitus incorporado à elite (BOURDIEU, 2007). Posteriormente, já no início do século XXI, a narrativa que envolvia o aparelho móvel elegeu seu público-alvo: os jovens de distintas classes sociais. O avanço tecnológico por empresas que ligadas à telefonia móvel proporcionou a massificação deste objeto.

A partir desta pequena introdução de como os celulares permeiam nosso cotidiano é que sugiro o exercício a seguir. No quarto exercício da disciplina de Teoria Antropológica II proponho articular meu objeto de estudo – o telefone celular – com o pensamento do antropólogo Marshall Sahlins e sua antropologia inspirada na obra Ilhas de História (1997).

Ao pensar o celular como um objeto histórico e que a partir dos agentes suas ações são elaboradas dentro da estrutura dos aplicativos de relacionamento (Tinder, Badoo, AdoteUmCara)  interessa-me saber em que medida o simbólico atua na síntese da reprodução de afetos enquanto virtualidade e enquanto realidade.

Para Sahlins (1997) os significados são colocados em risco na ação, então, quais seriam os significados da razão do próprio objeto ser ele mesmo, o celular, independentemente do que os agentes podem fazer com ele (número ilimitado de ações lícitas e ilícitas) sendo desproporcional aos sentidos pelos quais os signos dos aplicativos de relacionamento são apreendidos. Sendo assim, os jovens se submetem às categorias dentro da própria estrutura dos apps como geração, etnia e opção sexual. Nesse sentido os perfis estão cada vez mais personalizados como uma verdadeira combinação lógica inspirado nos moldes de Lévi-Strauss (2008).

A partir do texto proposto para a aula, levanto os seguintes questionamentos que podem ser agregados à pesquisa sobre o uso do celular e os relacionamentos afetivos.

  • Os casos de relacionamento entre homens x mulheres, mulheres x mulheres, homens x homens são cada vez mais particulares e potencialmente mais gerais dentro dos aplicativos?
  • Quais são os signos, classe de significados enquanto emblemas empíricos para estes tipos de relacionamentos?

Pode-se observar no discurso dos informantes (início do meu estudo exploratório nas redes) a divisão do trabalho linguístico enquanto regra a norma culta da língua portuguesa, também a extensão da intenção ao chamar à atenção dos possíveis parceiros. Um dos problemas centrais, observáveis, está centrado nas relações entre formas sociais e os atos apropriados pelo celular. Sahlins (1997) também propõe a análise reversa: que as ações pelo celular nos apps de relacionamento precipitam e antecedem formas sociais – seria a ação criando a relação adequada dentro da morfologia social. Pode também ser possível observar a contingência de eventos, curtidas e a recorrência de encontros online dentro do que o autor sugere que seria a estrutura de conjuntura.

            Pensemos o celular dentro da estrutura de conjuntura como uma possível realização prática dos afetos enquanto categoria cultural em um contexto histórico de disseminação destes aplicativos expresso nas redes online sempre motivadas pelos agentes históricos situados dentro de uma microssociologia e sua interação com o meio. Por fim, podemos analisar a contingência histórica de relacionamentos em Santa Maria pelos aplicativos Badoo, Tinder e AdoteUmCara e suas particularidades aqui na cidade pelas ações individuais e também ações recorrentes dentro de uma certa ordem cultural proposta pela estrutura de conjuntura de Sahlins. 

Referências Bibliográficas

 BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Editora Zouk, 2007.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro Ed. 1989. 3ª edição.

SAHLINS, Marshall. Ilhas de História. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


[1] Portal Teleco. Estatísticas de celulares no Brasil. Disponível em < http://www.teleco.com.br/ncel.asp>.