Algumas posições antropológicas e etnográficas

Algumas posições antropológicas e etnográficas

Como representamos o mundo em que habitamos

Este exercício de aula – Estratégias narrativas e críticas “pós” – levanta algumas questões que atualmente enfrentamos na pesquisa etnográfica, nesta sessão os autores Jean e John Comarrof (2010); James Clifford (2002); Marilyn Strathern (2006) e Lila Abu-Lughod (2018) oferecem algumas reflexões. As questões que destaco incluem: como os etnógrafos definem os limites entre o espaço e o tempo do que eles estudam; como eles determinam o contexto que é apropriado para entender isso; o papel da escrita em sua imaginação histórica e o paralelo com a escrita imaginativa; e, finalmente, se a etnografia deveria ter, ou pode evitar ter compromissos políticos ou práticos de algum tipo, além de seu objetivo de produzir um conhecimento relevante em termos de valor. Alguns aspectos atuais da etnografia apresentam tensões e conflitos em suas questões ao revelar compromissos e problemas comuns. Na proposta dos Comarrof (2010) para um modelo teórico-metodológico de uma antropologia crítica, os autores, ao revelarem e refletirem sobre os compromissos e problemas identificados no processo etnográfico apontam dificuldades no consenso sobre o lugar da etnografia emergindo *crises* epistemológicas, de autoridade, segundo eles

A etnografia não é uma vã tentativa de tradução literal, em que se veste o manto do ser de um-outro, concebido como algo comensurável ao nosso próprio. Trata-se de um modo historicamente situado de compreensão de contextos historicamente situados, cada um com seus próprios – e talvez radicalmente distintos – tipos de sujeitos e subjetividades, objetos e objetividades. A etnografia tem sido, ademais, um discurso inescapavelmente ocidental (COMARROF, 2010, p. 12).

Seguindo no debate dos autores, um segundo tema que cruza a antropologia histórica é o problema que a “etnografia” não faz parte de uma taxonomia clara e sistemática, “no final dos anos 1970 e início de 1980, tornou-se comum relativizar a guinada antropológica em direção à panaceia colocando o seguinte problema: Qual história? Que antropologia?” (COMARROF, 2010, p. 16). E com resultados variados e multifacetados, usa-se a etnografia para diferentes maneiras em diferentes ocasiões para (de)marcar certas diversidades e diferenças. Provavelmente não há muito sentido em tentar desenhar limites em torno de seu significado, mas precisamos reconhecer o intervalo de suas variações nos autores envolvidos na sessão 4 ao demonstrarem alguma indicação de como a etnografia está sendo representada em determinados tempos. Etnografia é frequentemente vista como uma forma específica de pesquisa qualitativa, ao ser comparada ou contrastada com outras metodologias, por exemplo, com o trabalho de história de vida ou análise de discurso; embora até o os limites com esses vizinhos são um pouco confusos.

Contudo, ainda podemos identificar uma orientação metodológica que possa razoavelmente ser tratada como central para a etnografia, e para os propósitos desta discussão quando tomamos o termo para se referir a uma forma de pesquisa social e cultural que enfatiza a importância de estudar em primeira mão o que as pessoas fazem e dizem em contextos particulares, ou ainda, de que forma representamos o mundo em que habitamos. Como etnógrafos, nós tipicamente insistimos na importância de entender as perspectivas das pessoas estudadas se quisermos explicar, ou mesmo descrever, as atividades em que se envolvem e os cursos de ação que eles adotam. Ao mesmo tempo, geralmente há uma ênfase no desenvolvimento de uma compreensão analítica de perspectivas, atividades e ações, e que possa ser provável as diferenças, talvez até em conflito em como as pessoas se veem no mundo.

Se a antropologia continua a ser praticada como o estudo dos “outros” externos, feito por indivíduos ocidentais não-marcados nem problematizados, a teoria feminista, prática acadêmica que também transita entre eus e outros, em sua história relativamente curta veio a empreender o perigo de tratar eus e outros como dados. (ABU-LUGHOD, 2018, p. 196)

Para Abu-Lughod (2018) às vezes tendemos a tratar as pessoas como se o seu comportamento nas situações que estudamos é inteiramente um produto dessas situações, ao invés de quem são e o que fazem em outro lugar, então, como poderíamos pensar nestes deslocamentos? Algumas críticas têm sido no sentido de tentar localizar perspectivas e padrões nas ações em um contexto singular, como sugere a autora, etnografias do particular, pois o mesmo ponto pode ser localizado em termos temporais, já que algumas etnografias em detrimento de um trabalho de campo curto podem encorajar uma perspectiva que negligencia a história local e amplia os objetos que estão sendo estudados. Além disso, alguns etnógrafos tendem a tratar o que eles observam nas situações que estudam como se isso pudesse ser considerado típico do que sempre acontece “lá” ao representar no sentido macro. É aí que Clifford (2002) bem coloca que “analisando esta complexa transformação, deve-se ter em mente de que a etnografia está, do começo ao fim, imersa na escrita. A escrita etnográfica encena uma estratégia específica de autoridade” (CLIFFORD, 2002, p. 21).

Outra área de discordância, novamente por vezes enquadrada em termos de debates sobre a etnografia, diz respeito ao pesquisador localizar o que está sendo estudado no contexto da sociedade em geral, ou se em vez disso, ele concentra-se em estudar detalhadamente o que as pessoas fazem em contextos de locais específicos. No entanto, existem pelo menos dois problemas. Primeiro, como podemos determinar qual é o contexto mais amplo apropriado ao situar o que estamos estudando? Em segundo lugar, como podemos ganhar o conhecimento que precisamos sobre esse contexto? Nenhuma dessas questões é simples. Quanto a primeira, talvez devêssemos perguntar se o contexto é descoberto ou construído; e, se for construído, se é construído pelos participantes ou pelo antropólogo. Em outras palavras, sugere-se que os participantes em atividades sociais efetivamente “contextualizem” essas atividades no decorrer de sua execução, indicando uns aos outros o que é e o que não é relevante. A investigação etnográfica deve ser localizada, portanto, isso leva à segunda pergunta, sobre como devemos adquirir informações sobre o mundo em geral necessárias para situar os fenômenos locais que estamos estudando para representar o mundo em que vivemos? Devemos encontrar alguma maneira de estudar esse contexto mais amplo etnograficamente? Devemos notar que em vários momentos a etnografia e a representação etnográfica estiveram intimamente associadas a várias abordagens bem diferentes, incluindo funcionalismo, estruturalismo, interacionismo e marxismo. Um ponto de vista diferente seria que a escolha do contexto pelos etnógrafos é necessariamente arbitrária, no sentido de que uma série de histórias diferentes poderia ser contada em qualquer situação, cada um colocando-a num contexto temporal e espacial diferente. Nesta perspectiva, a etnografia é simplesmente um meio entre outros para contar histórias sobre o mundo social, histórias que não precisam ser vistas como competitivas em termos epistêmicos. Claro que, dada esta orientação, haveria um enigma de por que alguém iria se dar ao trabalho de se dedicar ao trabalho de campo etnográfico. Por que não apenas escrever ficção na forma de romancistas e escritores de contos?

Por que essa ambivalência duradoura? Será a etnografia, como muitos de seus críticos deram a entender, peculiarmente precária em seu empiricismo ingênuo, em sua ausência de reflexividade teórica, em sua arrogância interpretativa? De fato, um crítico pouco simpatizante poderia dizer que a etnografia é uma relíquia dos tempos de relatos de viagem e das explorações, da aventura e deslumbramento, que ainda se contenta em oferecer observações sujeitas à escala e à falibilidade humanas; que ainda depende, por falta de engenho, da facticidade da experiência em primeira mão (COMARROF, 2010, p. 10).

Para Strathern “não é para a história que eu mesma me volto, mas para a maneira pela qual se pode manter a análise como uma espécie de ficção conveniente ou controlada” (2006, p. 13). A rejeição da neutralidade é mais óbvia no caso da etnografia crítica e feminista. Para concluir, a essência da etnografia parece ser a tensão entre a tentativa de compreender as perspectivas das pessoas a partir do interior, enquanto também visualizá-las em seu comportamento mais distante, de maneira que podem ser estranhas (e talvez até questionável) para elas. Neste exercício busquei apresentar algumas questões importantes e difíceis que atualmente enfrentam os etnógrafos. Referem-se aos parâmetros espaciais e temporais coleta de dados e da natureza dos fenômenos socioculturais, como o contexto deve ser levado em conta e questões sobre o propósito do trabalho etnográfico e suas contestações em como podemos representar e descrever o mundo que habitamos.

Referências

Abu-Lughod, Lila. A escrita contra a cultura. Equatorial, 5(8): 193-226, 2018.

Clifford, James. “Sobre a autoridade etnográfica”. In A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002, p. 17-62

Comaroff, Jean; Comaroff, John. Etnografia e imaginação histórica. Revista Proa, 2(1): 1-72, 2010.

Strathern, Marylin. “Estratégias antropológicas”. In O gênero da dádiva: problemas com as mulheres e problemas com a sociedade na Melanésia. Campinas: Editora da Unicamp, 2006, p. 27-52.